Posted by oculos on Jan 15, 2012 in
Oslo,
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Domingo de manhã, rotina de sempre: ler jornal, tomar café, assistir a um filme, pensar em tomar coragem para ir correr, etc.
Abro o jornal e leio uma das manchetes: “Cotidiano: mulher é encontrada sem olhos e sem pele em Mairiporã.” Pergunto eu: “Cotidiano”?!?!
É o mundo cão de volta, depois de dois, três dias de paz com o universo.
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Na semana que passou, fui voluntário junto à faculdade para receber os novos estudantes intercambistas. Sim, aqui é muito comum receber estudantes que saem dos seus países para cursar um semestre em outra faculdade. Com currículos mais flexíveis, é uma excelente oportunidade para treinarem o inglês e adquirirem experiência internacional, ainda que a diferença cultural não seja assim tão acentuada entre os países da Europa, de onde vêm a maioria. OK, as diferenças são grandes, mas pequenas aos olhos de quem vem de outro continente, como eu.
A semana foi um sucesso. É sempre bom conhecer gente de vários lugares do mundo. As últimas noites (quinta e sexta) foram só de farra, com este quem vos escreve dançando (bom, dançando, não – tentando) e zoando um bocado. As férias vão acabar em breve, e é sempre bom fazer novos amigos e fazer algo de diferente para quebrar a rotina.
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A pior coisa de ser um brasileiro atípico (se é que é possível ser brasileiro atípico, já que quase tudo no mundo pode ser considerado também brasileiro) é que as expectativas às vezes são decepcionantes: uma menina pediu para eu mostrar meus passos (moves?), já que, como brasileiro, eu devo tê-los, não? Enfim, não sabia se inventava alguma coisa ou sumia. Fiz os dois… (ou foi ela que sumiu, não lembro… hehehe).
Esperam que saibamos samba (um outro lá me pediu para dançar samba). Só faltava pedir capoeira ou para dizer qual foi nossa escalação na copa de 78 para que a decepção fosse completa. Bom, pelo menos falo português e adoro praia, não?
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Decidi: meu plano agora é me transformar em um brasileiro típico. Já baixei “Ai Se Eu Te Pego”, e acabei de comprar “Danza Kuduro”, hit do momento na Noruega. Sim, um diligente e informado leitor irá me informar que Danza Kuduro é um hit cantado por um latino, de um emigrante português (salvo engano) na França, baseado em rítmo angolano. Mas, por incrível que pareça, um dos discos de Kuduro, na iTunes Store, tem “brasileiro” como gênero. Vou capitalizar nisso…
Falando nisso, que coisa, não? A Angola tem uma música sua, original, que agora pasteuriza-se e é enlatada para consumo na Europa. Espero que isso seja uma coisa boa para aquele país, e não uma exploração cultural de gosto duvidoso.
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Outra idéia para me transformar em brasileiro da gema: vou aprender a fazer feijoada. Já mandei ver um bolo esses dias (desses que nossas avós e mães fazem no Brasil, normais, sem frufru, mas que adoramos), e agora vou ver se faço feijoada. Ou acarajé, para ser ainda mais brasileiro: baiano. Mas sem axé, que tudo na vida tem limite.
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Nos momentos de tédio, resolvi procurar música brasileira no Spotify, serviço de música na moda por aqui, e achei uma versão de Arrumação, de Elomar, cantada por Sérgio Reis. Caralho, não sei se é porque ando em fase de autoafirmação geográfica, mas fiquei arrepiado. Até MPB tenho ouvido… E, para lembrar da infância, escutei “Bananeira Mangará” e “Frevo de Mulher”.
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Foi excelente ter ido às festas no bar da faculdade, coisa que normalmente não faço. Descobri que já conheço muita gente, descobri que há muita gente boa a conhecer, e descobri que, por mais que não tenha tanto a falar do meu país, é de lá que eu sou, e de lá sinto falta, talvez pela primeira vez.
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Conheci uma grega. Sempre quis conhecer uma desde que Cam’s me deu um CD de Despina Vandi. A grega, tal como num filme, me disse que todas as palavras vêm do grego. ADOREI!
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Vou tirar o troço da Nike que posta no Facebook o quanto eu corro. Descobri que é um pouco demais. De repente, encontrava com noruegueses na faculdade que já sabiam como dizer “Eu corri XX km” EM PORTUGUÊS por causa das postagens automáticas.
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Bom, deixa eu voltar a ler o jornal, pulando, obviamente, o caderno “Cotidiano”, e fingir que a vida é uma beleza.
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Ninguém aplaudiu! Pôôô...
Tags: Ai Se Eu Te Pego, Domingo, Flha de São Paulo, Noruega, jornal, kuduro
Posted by oculos on Jan 4, 2012 in
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Feliz Ano Novo!
Coisa que tem me irritado: a quantidade de gente descendo a lenha em Michel Teló. Ah, vai se catar…
Vamos aos fatos:
1. Desde quando neguim espera que música de massa seja exatamente intelectual? Povo metido a besta! Mania de gente descer o cacete em música popular só porque prefere ouvir a MPB, como se esta, apenas por seus méritos, tivesse que ser socada na guela do povo. É como se dissessem: “olha, povão, vocês não têm o direito de gostar dessa música, porque a música popular, de fato, é essa outra, que chamamos de MPB”. É presunçoso, preconceituoso e, no fim das contas, revanchista.
É óbvio que não estou a dizer que a tal música seja lá cheia de mérito, mas é que não vi o cara, nem ninguém, dizer que a música “Ai Se Eu te Pego” deveria ganhar o Prêmio de Letra mais Profunda. Portanto, não pode ser julgada pelo que ela não é.
2. Concordo com Lobão. Podem me detonar. Eu sei, meu gosto pra música é sofrível (porém não gosto dessa música da qual falamos, bem entendido). Mas somos um país intenso – alegre, violento, cheio de contrastes. E, diz Lobão, nada é mais idiota do que achar que a música que nos representa é aquela cantada com o sujeito todo tranquilo, parecendo que tudo é calmo e sereno, em um banquinho com um violão, dizendo “Ela é Carioca, Ela é carioca…”. Ah, devo dizer, essa música NÃO me representa MESMO.
3. Sinceramente? Em que essa música é pior do que o techno dos clubs alemães, do que o dance de Ibiza? Enfim, é música de praia, de festa, não de concertos artísticos. É diversão. Música não tem que ser sempre obra de arte, assim como texto de jornal não tem que ser literário. Música tem função utilitária. Não é útil pra mim, não é pra você, mas muita gente gosta.
4. Mania chata essa de neguim politizar até a porra da música! O cara começou a cantar uma coisa qualquer. Vendeu. Faz sucesso na Europa toda. E é ELE que tá errado? Longe mim dizer que é a música ideal, mas, puta que pariu, essa crítica toda cheira tanto a dor de cotovelo mal disfarçada. Pra que tanto auê?
5. Odeio pensamento único. Do tipo “só curto música boa”, como se música, melodia, não tivesse certo apelo a sensações, emoções, sentidos. E fica aquela coisa meio arrogante, do tipo “a música que escuto é que tem qualidade”. Então tá, então 80% da indústria musical brasileira deveria desaparecer, só porque o povo não aprende que a música que escuta é ruim? Sei…
6. Sei, compreendo e entendo que parte da indústria musical brasileira contribui para a alienação, reproduz valores e mentalidade com a qual não nos identificamos. Mas não é assim com toda espécie de arte, seja ela de qualidade ou não? Ou será que queremos uma ditadura intelectual agora? Uma ditadura onde só caibam Marisas Montes, Caetanos Velosos (pra mim, um chato de galocha) e Cia. Ltda.?
7. É horrível quando alguém se acha superior por causa dos seus gostos. Seria como se eu começasse a achar que todo usuário de Windows é cidadão de segunda classe. Ou que um xiita de dietas começasse a dizer que quem come no McDonald’s é doente, e que essa lanchonete deveria ser extirpada.
8. Não gostou da droga da música? Bem-vindo ao clube. Agora, garanto, tem muita gente que gostou. Não vai ganhar nenhum prêmio da APCA, mas fazer o que se D. Maria lá da feira gosta?
9. O Brasil não é único nessas coisas. A Romênia convive com seu Manele, Portugal com sua música Pimba (é assim mesmo?, e por aí vai. Na Romênia, sei que há um movimento forte contra o apelo do Manele, apesar da popularidade do gênero. Na Noruega, há o DDE, por exemplo, que não é o supra-sumo da música nórdica, mas a garotada escuta e se diverte. Fazer o que?
10. Por último, acho que falta apenas bom humor às pessoas. Música de qualidade não pressupõe, para existir, que se elimine a de massa. É clichê chato o tal “tem espaço pra tudo”, mas, em se tratando de fenômenos que, em regra, são efêmeros, não sei porque não encarar como mais uma daquelas ondas do verão, que sempre vêm e vão. Aliás, um picolé de limão para quem apontar uma música de verão sequer que seja uma pérola da poesia. Acho que, escutável, mesmo, só os Tribalistas que, salvo engano, fizeram sucesso no verão de 7, 8 anos atrás.
11. (UPDATE) Fico pensando no que inspira as pessoas a perderem o seu tempo para escreverem longos textos para detonar alguém apenas porque canta uma música que não é a que gostariam de ouvir. Talvez seja o mesmo e inexplicável desejo meu, de ser ouvido, ou, no caso, lido. Mas talvez seja mais que isso: talvez uma demonstração de uma agressividade latente para com tudo o que não lhes agrada, em uma espécie de egocentrismo no gosto, na opinião. Gente que critica a revista Época porque colocou o cara na capa, como se o cara estivesse ali retratado pela qualidade da música, e não pelo impressionante sucesso alcançado. Se Tiririca foi eleito deputado, porque o cara não pode sair na capa da Época? Aliás, a capa da Época, da Veja, da IstoÉ, da Newsweek, agora virou certificado de importância das coisas? Vá entender…
Enfim, deixem o cara fazer sucesso, deixem que pensem que somos um país alegre, sensual, vibrante. Antes isso do que essa mentirinha de “Olha que coisa mais linda, mais cheia de graça…”.
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Tags: Ai Se Eu Te Pego, Manele, Michel Teló, Portugal, Romênia, brega, música