11/11/2013
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Tailândia II

Ok, eu me precipitei.

Escrevi três dias atrás sobre minha curta viagem à Tailândia.

Meu erro foi ter tentado reduzir um lugar tão rico e complexo às minhas primeiras impressões. Continuei a viajar um pouco mais por Phuket, e percebi que há de tudo aqui. Hoje descobri a minha mini-Itacaré aqui, e é pena que a viagem está chegando ao fim. Uma praia pequena, com uma vilazinha com bares e restaurantes, sem o choque que é Patong, sem a falta de praia que foi Friendship Beach, e sem o luxo da Laguna. Nai Yang é o que eu esperava de uma praia na Tailândia, e foi muito bom ter vindo pra cá.

Perto do aeroporto, a comida custa preços mínimos, as pessoas são igualmente gentis e atenciosas, e nada de neon, nada de multidão de vendedores – apenas uma praia gostosa com um pouco de vida à noite.

Ou seja, a Tailândia tem de tudo. É um lugar fantástico. Volto pra casa apaixonado por aqui, com vontade de voltar sempre. E o melhor da Tailândia continua sendo seu povo, embora suas praias, sua comida e seu atendimento conquistam qualquer um.

9/11/2013
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Tailândia

UPDATE: muito do que escrevi aqui foi precipitado. Escrevi um rápido post subsequente com uma atualização das minhas impressões sobre a Tailândia: http://maneblog.mgate.com.br/2013/11/11/tailandia-ii/

O melhor da Tailândia são os tailandeses.
Sim, caro leitor, encontro-me no Reino de Sião, hoje Tailândia. Nunca imaginei que viria aqui, embora sempre tenha nutrido enorme curiosidade de visitar esse país. Meu desejo de vir a esse país começou ao conhecer uma estudante intercambista da Tailândia que viveu em Conquista por um ano. Desde então sempre considerei vir visitá-la. Mas foi um acaso a minha vinda, o que achei ótimo, já que surpreendentemente, as boas coisas da vida quase sempre são oriundas do acaso.
O lugar é lindo, e me lembra muito o Brasil. Gostei de Bangkok, gostei de Phuket.
Mas confesso que não foi a natureza que me impressionou na Tailândia, mas sim o povo que vive aqui. Povo extremamente atencioso, simpático e educado. Pra se ter uma idéia, inventei de dirigir aqui, e eles dirigem “à inglesa”, com volante do lado direito e tudo. Apesar das minhas prováveis barbeiragens, nenhum xingamento no trânsito, e muita paciência por parte dos tailandeses. Sempre sorriem, sempre solícitos.
Quanto a Phuket, tenho sentimentos mistos em relação ao local. Tome-se Patong, por exemplo. É como se estivéssemos em uma Itacaré ou Porto Seguro, porém mil vezes mais inflada e caótica. Isso retira um pouco do charme natural que o lugar tem. Isso e a prostituição escancarada, que é quase engraçada nos primeiros 10 minutos, com ofertas para shows chamados “Banana show”, “ping-pong show”, ou coisas do gênero (talvez o Google explique isso melhor do que o decoro do espaço permite… ;), mas que se torna irritante depois de certo tempo.
Sim, se você se irrita com vendedores nas praias do Brasil, Patong será ainda mais irritante. E os ambulantes tailandeses insistem muito. Mas é um povo incapaz de cometer uma grosseria.
Fui às ilhas Phi Phi, conhecidas por terem sido cenário do filme “A Praia”. São de tirar o fôlego. Mas é triste sentir que há tão pouco planejamento público nesses lugares. Ao se chegar em Phi Phi, praia que bom, nada – milhares de quiosques vendendo bugingangas, e, para ir a uma praia, só pagando outros barcos para te levar lá. E ninguém nunca te avisou disso. Por outro lado, tinha umas poucas praias próximas, mas apenas uma me pareceu aberta para banho, já que as outras servem como ancoradouro de dezenas de barcos que fazem o transporte da ilha. Ou seja: ao invés de usarem as praias como devem ser usadas, desperdiçam um patrimônio excelente e o tornam em imensa bagunça.
O trânsito é lento, com milhares de pequenos “scooters” e motos em todo canto, a ponto de se levar 2 horas para percorrer 30-40km. É outra pena.
Comparar com o Brasil é inevitável. Se por um lado as praias são paradisíacas, as estradas sem buracos, o povo maravilhoso e a segurança ser a norma, por outro lado no Brasil, pelo menos na Bahia, as praias ainda são acessíveis por todos, são de fácil acesso, e não há tantos obstáculos até chegar a elas. E as cidadezinhas no Brasil, tipo Itacaré ou Praia do Forte, se mal planejadas (caso da primeira) ou meio descaracterizadas pela “modernagem” (caso da segunda), ainda são tranquilas e sem a sensação de se estar em uma feira do Paraguai. Mas, em compensação, aqui a comida é muito boa, a sensação de segurança é onipresente, e não se sente que estão tentando tirar vantagem o tempo todo.
Confesso que essa viagem aqui me deu certo orgulho do Brasil – acho que somos um excelente destino turístico, até porque somos um povo que gostamos de praia (eu quase não vi tailandeses nas praias, não sei se por razões econômicas (duvido)). Acho mais fácil desestressar em Itacaré ou na Praia do Forte (Porto Seguro pode ser meio complicada), porque tem-se uma charmosa vila para curtir com tranquilidade à noite, e praias maravilhosas de dia. Mas se a Tailândia não me impressionou tanto pelas praias (talvez mais bonitas que as nossas), o lugar me conquistou pelo seu povo e sua leveza.
Se você já foi à Tailândia, por favor, me diga o que achou.

3/11/2013
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Petição (abaixo-assinado): Certificados eletrônicos no Mac!

Por coincidência, um post publicado aqui sobre minhas agruras enfrentadas ao tentar instalar certificados digitais no Mac se tornou o post mais acessado desse blog, com aproximadamente 2.000 visualizações por mês.

O problema é o seguinte: a Certisign, principal emissora de certificados, não tem oferecido suporte adequado aos usuários de Mac. Além disso, os Tribunais, ao implementarem seus serviços de peticionamento eletrônico, não o tornam compatíveis com outras plataformas, sendo quase sempre necessário usar Windows para acessar aos sistemas adequadamente. Não é preciso nem dizer que sistemas públicos não deveriam restringir o acesso a usuários de determinada plataforma.

Assim, por sugestão de um dos comentaristas do post citado, iniciei um abaixo assinado para que usuários de outras plataformas mostrem a cara e revelem à Certisign e ao CNJ que há um número enorme de cidadãos que estão enfrentando problemas porque não usam Windows.

O link para o abaixo assinado é esse aqui:

http://www.avaaz.org/po/petition/Certificado_eletronico_funcionando_bem_em_todas_as_plataformas/?copy

Por favor, assine e contribua para a democratização e ampliação ao acesso dos serviços públicos digitais.

22/9/2013
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Maratona de Oslo 2013 – o jubileu

Se essa maratona não tivesse sido tão especial por ser a décima que corri, eu teria muitas reclamações: meu tempo foi ruim, o percurso foi terrível (basta dizer que fomos forçados a repetir um trecho idêntico de 10km por três vezes!), e eu não respeitei a maratona como ela merece. Ou seja, não dediquei à prova o treinamento necessário. Maratona não é brinquedo. Correr uma prova sem o devido preparo significará tortura. Não importa quantas maratonas a pessoa já correu na vida – digo sempre que cada prova é única e não adianta contar com o “lastro” para terminar bem. O “lastro” que se adquire permite que você suporte melhor a corrida, que consiga terminar s prova, mas não vai nunca garantir que sua corrida vai ser mais fácil ou livre de dores ou, ainda, com melhora no tempo. Essas três coisas só um bom treino garante.

Pois bem, isso tudo pra dizer que a maratona de Oslo esse ano não foi das minhas melhores. Foi melhor que o desastre da minha prova em Madrid, mas foi a minha segunda pior prova em três anos. Nesse ano não consegui correr tão bem quanto em 2011 e 2012. Isso porque sozinho é ruim, porque aqui faz frio, etc.

A vontade que tenho agora é de parar de correr maratonas. É muito esforço. Mas sei que se algum amigo me convidar para uma prova, vai ser difícil resistir… 😉

Em todo o caso, valeram as 10 provas. Cada uma delas cheia de histórias. Cada uma representa algum momento particular da vida. Não foram apenas provas – foram marcos.

10 maratonas

14/9/2013
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Embargos o que? Parte II

Ao escrever o post anterior, eu queria ter dito uma outra coisa, mas não disse para não ficar enfadonho. Pois digo agora: causou-me estranheza aqui na Noruega tomar conhecimento que princípios não são considerados fonte de direito. Fonte de direito é um conceito jurídico, e significa quais fatores são capazes de criar regras jurídicas. Mas o que isso me chamou a atenção é que, se princípios garantem que as normas escritas cumpram fins maiores, por outro lado levam à uma incerteza do que se coaduna e do que contradiz tais princípios. Por isso, aqui, eles são pragmáticos, e preferem a certeza das leis.

Mas uma fonte de direito considerada de grande relevância são os trabalhos preparatórios das leis – os debates, as discussões, enfim, todo o processo legislativo que desaguou na nova norma. Afinal, assim se entende qual foi a vontade do legislador, representante do povo.

Pois bem: artigo de hoje do jornal O GLOBO diz justamente que o legislador expressamente rejeitou a exclusão dos embargos infringentes ao votar a lei que disciplina o processamento das ações de competência originária do STF (Lei 8.038/90), essa que os ministros Gilmar Dantas e Marco Aurélio de Mello insistem ter banido os tais embargos pelo silêncio. Ou seja: nunca foi da vontade do Congresso ter retirado esse recurso do ordenamento jurídico.

Mas como no Brasil nem sempre o pragmatismo impera, mas sim o oportunismo de ocasião, vão dizer que a vontade do legislador não importa, que o mais importante é um princípio maior de harmonia normativa, ou qualquer outra denominação pomposa de prateleira apenas para justificar um posicionamento…

13/9/2013
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Embargos o que?

Eu entendo a desconfiança que o brasileiro tem em relação a tudo. Somos roubados a todo momento – roubados por nossos políticos, por nossos empresários, por nossos governantes – até por ladrões somos roubados.

Reconheço a desconfiança que o cidadão teve em relação a ministros do STF que votaram de forma mais favorável aos réus no processo do mensalão – principalmente em relação a Ricardo Lewandowski e Dias Toffoli. Este último, por ter um passado de serviços prestados ao governo lulista. O primeiro por, na visão de alguns, ter agido de forma proposital em defesa dos réus (sem fazerem o devido contraponto ao Joaquim Barbosa que, se adotada a mesma medida, teria escolhido o lado da acusação).

Por ser técnico do direito e portanto familiarizado com a dialética jurídica, em que toda questão costuma ter dois ângulos, dois lados e dois interesses, essa emotização de um processo judicial sempre me pareceu descabida. Não que eu ignore a sujeição que certos julgadores tem a ideologias, premissas ou interesses pessoais. Mas é que sinto ser um desserviço à evolução do direito a análise de um julgamento segundo o suposto interesse íntimo dos julgadores, quando o serviço deveria ser justamente a exposição dos argumentos jurídicos, a fim de que o confronto seja claramente exposto. Pouco me importa o motivo pelo qual um ministro decide A ou B. Importa-me, sim, as razões jurídicas da decisão. Acredito que, assim, as pessoas poderiam ter opiniões muito menos apaixonadas e mais responsáveis sobre processos judiciais.

(durante anos, ouvi de clientes que perderam alguma causa que o juiz provavelmente havia sido comprado, que servidor de cartório tinha sido comprado, etc… Isso quando não eram os próprios advogados contrários quem diziam essas coisas aos seus clientes quando uma causa era perdida.)

Mas o que me chama a atenção até aqui é que, na imprensa, só há (com exceções) espaço para os argumentos demagógicos ou políticos. Boa parte dos artigos da grande mídia elabora um sofisma altamente perigoso para a democracia brasileira e para a evolução do nosso sistema judiciário: esse sofisma consiste em vincular a aceitação dos recursos (embargos infringentes) a uma eventual desconsideração do STF à opinião pública, ou ao favorecimento da impunidade, ou mesmo (novamente) ao fato de estarem os ministros “comprados”. Ou seja: o STF, segundo esses articulistas, deveria ser uma espécie de coliseu e decidir ao sabor do grito da platéia, ou, no caso, das ruas.

O grito das ruas deve ser, sim, ouvido e respeitado pelo judiciário, não no mérito de suas decisões, mas nos meios. No respeito ao devido processo legal. Nos julgamentos céleres. Na boa fundamentação de suas decisões. O judiciário peitado pela comoção faz tudo, menos justiça.

Mas o que me incomodou mesmo, mais do que isso, é que no caso dos tais embargos infringentes, não vi quase uma linha sequer a respeito da questão técnica. Para os articulistas, a questão resume em aceitá-los e dar prova de desconexão do STF com a opinião pública, ou recusá-los e mostrar que são respeitáveis. Não há meio termo. Às favas com o direito, com as leis.

Algumas argumentações ultrapassam a boa-fé. Vi, no Facebook, alguém reclamar que os ministros foram nomeados por Lula. Mas, estranhamente, não vi a foto de Joaquim Barbosa na lista, como se não tivesse o “ministro-algoz” dos réus sido nomeado pelo mesmo Lula. Porque é fácil manipular os fatos sem buscar fazer uma análise desapaixonada das coisas. Na fogueira da revolta (sim, nem sempre é má-fé, estamos todos revoltados com a corrupção), as pessoas jogam quem estiver pela frente. Por exemplo: a ministra Rosa Weber votou no mesmo sentido de Joaquim Barbosa em quase todas as questões até agora (exceto pelo crime de formação de quadrilha). No entanto, ter votado contra, agora, a transforma em vilã. O mesmo será o caso do Min. Celso de Mello, caso vote pela aceitação dos tais recursos.

Às favas com o direito, repetem silenciosamente. O que se quer ver é condenação, ainda que dispensado o devido processo legal. As pessoas preferem, estranhamente, um tribunal que condene por ouvir a opinião pública, ainda que o direito seja violado, do que a aplicação correta das leis, ainda que isso signifique impunidade. Veja-se bem: eu não estou aqui afirmando que os embargos infringentes são ou não cabíveis. Mas diante da análise de todos, que não levam em conta o argumento jurídico, parece ser essa a escolha. E ela é mais que lamentável – é perigosa. Um judiciário sem independência ou serenidade significa que julgará as pessoas ao sabor do vento e não das leis. E uma opinião pública desinformada significará a enternização da desconexão que temos de nossas instituições. Como não as compreendemos, tentamos influenciá-las pelo grito. Mas nosso grito deveria ser por justiça, e não por condenação automática.

Engraçado: quando Breivik matou 77 pessoas, eu não vi protestos aqui para que ele fosse condenado à pena máxima. Ou que fosse morto. Ou que fosse linchado. Ou que fosse declarado inimputável. O que se pedia era justiça e que as leis fossem aplicadas com o rigor que devem ser aplicadas.

No Brasil, ninguém se pergunta quais são as leis. Pouco que se importa. As pessoas parecem preferir que, se forem favoráveis aos réus do mensalão, que sejam colocadas para debaixo do tapete. Não importam as leis. Faz sentido em um país em que temos uma relação tão ambígua com as leis: desconfiamos delas. Quando desconfiamos que foram feitas para proteger quem não merece, reclamamos delas. Quando poderosos não as cumprem, dizemos que ninguém as respeita.

Acho que nosso problema é encararmos a lei como barreira pra tudo, e não como pilar de uma sociedade civilizada. Portanto, preferimos o linchamento, o coliseu.

Vamos mal assim.

UPDATE (14.09.2013):  Felizmente, já surgem artigos que abordam a questão com menos paixão e demonstrando que a questão é, de fato, controversa. Na Folha de S. Paulo de hoje, dois artigos, um contra e um a favor à admissibilidade dos embargos infringentes. Além disso, teve esse outro aqui que achei interessante.

UPDATE 2 (14.09.2013): Escrevi outro post sobre o assunto, motivado pela descoberta de que os tais embargos não foram revogados de propósito.

23/7/2013
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Sobre ateus e crentes

(ou rápida reflexão sobre crença, sem maiores aprofundamentos)

Eu não conseguiria ser ateu, porque eu acho que a vida determinada por meras reações químicas me parece desprovida de sentido e, de alguma forma, o senso de moral artificialmente construído, sem uma justificativa externa, me soa difícil de entender (em princípio, porque exemplos tenho aos montes de que moral e crença nem sempre andam juntas). De certa forma, invejo os ateus que não precisam de um senso de moral externo para se portarem bem (embora não acredito que os crentes o façam apenas por temor).

Mas admitindo a existência de Deus, como eu admito (sim, sou refém da minha crença e do meu pessimismo), é aterrador que Ele, sendo Deus, pode ser tudo o que dizem dEle. Ora, se admito que Ele existe, admito que é uma força soberana e independente. Poderá ser tão bom que não se importa com todas as besteiras que fazemos aqui, ou pode ser que seja tão rígido como os fanáticos pregam.

Opções dadas, prefiro crer na primeira versão de Deus porque, já que preciso crer para ter sentido na vida, que pelo menos seja esse um bom sentido… 🙂

12/7/2013
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Imigração e integração

inclusao

Uma hora dessas vou estudar com vontade a história da imigração no Brasil, a ver se aprendo o que aconteceu para que a presença de povos tão diferentes não tenha gerado uma sociedade dividida entre castas raciais ou religiosas (noves fora a recente e isolada delinquência contra bolivianos em São Paulo).

Digo isso porque li algo no Aftenposten, jornal aqui da Noruega, sobre um casal de curdos que se sente perseguido por não adotar as práticas islâmicas. Ou seja, fugiram do Irã por causa do Estado Religioso, e agora são vítimas de bullying nesse outro país por parte de muçulmanos mais radicais. Conta o artigo que uma senhora cuspiu na iraniana após ter se recusado a vestir suas filhas de forma mais, digamos, condizente com os preceitos muçulmanos.

Eu sempre me pergunto porque um país desenvolvido tem tanta dificuldade de resolver questões como essas. Não é que eu seja ingênuo ao ponto de achar que no Brasil essa integração foi sempre uma maravilha. Não. Sei que turcos (na verdade libaneses), mesmo cristãos, foram vítimas de preconceito na Bahia, ao ponto de, infelizmente, quase não falarem mais seus idiomas ancestrais no Brasil. Sei que os japoneses também foram vítimas de perseguição, inclusive em razão da II Guerra Mundial. Sei que a herança escravocrata gerou um fosso de integração. Mas talvez essa noção do  “homem cordial” explique a razão para que o conflito com estrangeiros não seja marcante em nossa sociedade.

Ou talvez a miséria e as duras condições de fazer a vida na America do Sul tenham sempre sido problemas principais a lidar e que provavelmente preenchia nosso dia-a-dia, não nos dando tempo para alimentar luxos de segregação – sei lá.

É que aqui na Noruega vejo dois lados que parecem sintoma de uma certa esquizofrenia: de um lado, há um país disposto a adotar valores de tolerância, de pluralidade, com respeito às origens de cada um, aceitando e incentivando essa diversidade. Aqui, por exemplo, crianças têm aulas em seu idioma natal. Por outro lado, há um país que não se deixa integrar. Tudo o que é estrangeiro parece um tanto quanto exótico demais, barulhento demais, diferente demais. Não sei se o norueguês típico é exatamente bairrista, mas com certeza gosta muito de tudo o que seja tipicamente norueguês. Costumo brincar com meus amigos noruegueses que nunca entendi porque os Vikings, tendo viajado meio mundo, sempre voltaram pra cá (bom, alguns ficaram na Normandia…). É um pais lindo, claro. Mas caramba, que frio que faz aqui! 🙂

É claro que a comparação com o Brasil é complicada, porque já deixamos de receber imigrantes faz tempo, e estamos agora a fazê-lo. Mas sinto que será diferente. Sinto que nossa velha crença de que “coração de mãe sempre cabe mais um” sempre nos distinguirá como um país acolhedor. Mas sei também que somos briosos, do tipo “somos assim, aceite se quiser”. Acho que há uma certa Lei do Imigrante no Brasil que diz que, para viver nesse país, todos são bem-vindos, contanto que aceitem que aqui (lá) sempre se perderá algo do que se é para se tornar brasileiro – com todas as maravilhas e desgraças que isso significa.

6/7/2013
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Dilma e FHC: é tudo questão de boa vontade

Há algo na política brasileira que me parece tão ruim quanto a corrupção, quanto a incompetência, enfim, quanto à irresponsabilidade dos tais representantes do povo: a falta de diálogo honesto.
Explico através de um exemplo: a nossa presidenta, ao propor uma reforma política, teria enviado um emissário ao FHC para sondá-lo sobre a proposta. Depois todo mundo começou a descer lenha na Excelentíssima Senhora, por várias razões: que a medida seria juridicamente incorreta, que a reforma política não resolveria nada, que não era isso que o povo tava pedindo, que as questões seriam complexas demais, que seria demagogia, etc. Todo mundo, até o próprio FHC.
Eu, otimista em relação às pessoas talvez por um vício de ingenuidade (ou, como diria o sabichão Gilmar Mendes, por ser muito “naífico” de minha parte), acredito que a presidenta foi bem intencionada. Sim, o que as ruas estão pedindo pode requerer ou ruptura ou consenso. Ela buscou diálogo, e talvez terá sido vítima das próprias boas intenções. Agora nenhuma das vozes que se levantou para criticá-la apontou caminho algum.
Acho mais: acho que a presidenta tentou e tenta, corretamente, ao meu ver, utilizar o clamor popular como catalisador de reformas que são impossíveis em governos de coalisão. Daí tanta resistência e maledicência.
O que acho incorreto é que o tal traíra, digo, ex-presidente FHC, venha criticar as propostas (como se não tivesse nunca apresentado proposta semelhante), sem reservar um pingo de boa vontade a alguém que teve o gesto de buscar diálogo. A boa vontade poderia ser do tipo “olha, não concordo com isso que ela está a propor, mas acho louvável que busque ouvir diferentes setores”. Nem isso se ouviu dele. Mas Dilma, com seu gesto republicano, é queimada em praça pública. E o tal “príncipe” ouvido como autoridade. Porque em política não se dá asa a cobra, deve ter pensado o tal “estadista”. FHC só elogia Dilma quando esta lhe faz algum afago.
Você, leitor cético que simpatiza com o PSDB, poderá até dizer que ela buscou ouvir FHC com segundas intenções, como, por exemplo, legitimar uma eventual barbeiragem. Mas ainda isso seria legítimo e desejável – ou o PSDB diz o que quer e acha correto ser feito, ou então assume que não tem o que dizer, que prefere o “quanto pior, melhor”. Não seria melhor se os partidos começassem a dialogar sobre o que realmente pensam ser o melhor para o país (não aquele diálogo da barganha nas votações do congresso, bem entendido)?
Gostaria que no nosso país as pessoas tivessem menos senso de preservação política e mais vontade de governar direito, de ouvir todo mundo. Mas quando até Renan Calheiros tenta sair de bonzinho, percebe-se que a política que interessa ao eleitorado só é feita quando o público parece estar assistindo.
Isso noves-fora a mania do brasileiro de só respeitar bacharel (não é a toa que advogado é tratado por “doutor”). A Dilma apresenta uma proposta de constituinte restrita, e descem o malho nela porque constituinte não poderia ser restrita – como se esse tecnicismo só conhecido por bacharéis de direito fosse mais importante do que o que foi realmente proposto: uma reforma política feita não pelos atuais representantes, devido à contaminação da tal reforma com o corporativismo e o fisiologismo, como se essa idéia não fosse interessante. Focam-se em um preciosismo jurídico absolutamente irrelevante.
Esse mis en scene dos políticos dá nojo.
Não digo que acho que o governo agiu corretamente quanto à catarse coletiva das últimas semanas. Está colhendo o que plantou por ter deixado de ser um governo popular, conectado com as bases e com a militância – muito embora duvido que teria sido eleito se tivesse se apresentado como governo popular, vide a tal Carta aos Brasileiros, vide as coligações, vide a tal peemedebização. Se o PT tivesse sido PT desde sempre, nunca teria sido eleito.
Mas brasileiro gosta é de político cheiroso, que fala francês. Se o PT não tivesse usado Hugo Boss (ou bebido Romanée-Conti), talvez isso que acontece agora não teria acontecido. Mas talvez o PT não estaria no governo se não tivesse tomado banho de loja. Porque Romanée-Conti ou Hugo Boss só quem pode usar sem ninguém se incomodar é o PSDB.

20/6/2013
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O gigante acordou… e agora?

O Brasil parece viver uma catarse coletiva. Acordamos. É bom que seja assim. É bom que as pessoas resolvam fazer os governantes sentirem medo. Acho que ninguém perde por isso.

Mas e agora? Nem vou me atrever a dar palpite no que causou isso e pra onde vai o movimento, quando nem mesmo grandes e experientes cientistas políticos conseguiram ainda entender isso tudo.

Eu penso da seguinte forma: a fase de “não temos uma causa específica”, ou “não nos faltam causas” vai acabar. Não me entenda mal: eu concordo com essas frases, e concordo com a saída às ruas, com a mobilização social. Tudo é melhor que a apatia.

Mas isso não servirá a médio-longo prazo. Isso tem o risco de despolitizar, de não criar uma consciência coletiva responsável. E pode ter resultados desastrosos.

Por exemplo: vi que uma das propostas veiculadas supostamente pelo Annonymous pedia a punição da corrupção como crime hediondo. A proposta, bem-intencionada, não resiste a pequenas indagações: qual corrupção? Passiva? Ativa? Peculato? Falsidade ideológica? Prevaricação? Enfim, será que um deputado que desvia milhões deve ter a mesma punição de um servidor público de um cartório que cobra uns R$10,00 para agilizar um documento rapidinho? Claro, as duas condutas são reprováveis, mas igualá-las abriria uma porta para virarmos um desses países fundamentalistas do Oriente Médio. Daí pra cortar a mão de ladrão em praça pública é um pulo.

Vi que as pessoas concordam muito nas causas genéricas, mas começam a discordar quando são mais pragmáticas. Por exemplo: o projeto conhecido por “cura gay”. Basta ir aos detalhes que as pessoas se dividem. É verdade que o movimento começou e ganhou força com uma causa específica e clara: redução em 20 centavos na passagem do ônibus, o que contradiz o que eu acabo de dizer. Mas convenhamos que é difícil ser contra redução de tarifa, não?

Portanto, penso que é preciso ter causas, sim, mas causas responsáveis.

Além de causas, penso que a única forma de manter a mobilização passa por duas pequenas mudanças de atitude:

A primeira, é começar a fazer parte da discussão política. Filiar-se a um partido político é uma forma de se manter engajado, de aprender a construção de idéias e a defender pontos de vistas. Mas é claro que tem pessoas que preferem engajar-se fora das instituições (principalmente os mais à esquerda). Portanto, que o engajamento também se dê nos movimentos sociais. É importante ver que o Movimento do Passe Livre conquistou respeito por seu discurso coerente, sério e depurado com anos de luta.

É claro que esse aprendizado traz o risco da acomodação ao status quo, que acredito que foi o que aconteceu ao PT, tanto tempo no poder. Mas é necessário conhecer política pública, modelos de governança, e, por que não, pontos de vista ideológicos.

O segundo, mais transcedental, me foi apontado por dois amigos no Facebook (você, carioca sangue-bom, e você, pernambucana arretada) durante as discussões sobre o protesto: a mudança de postura diante das más-práticas. A mudança de si mesmo. O abandono do jeitinho. A opção pela conduta ética diária. A visão clara de que as coisas devem funcionar bem pra todos, e não como resultado de um jeitinho individualista (propinas, agrados, “quem-indica”, etc.).

Que nossa catarse continue, mas que as mudanças que estamos propondo venham pra ficar, e que nos orgulhemos não de um dia termos acordado, mas sim de que passamos a construir nosso destino nós mesmos, com nossa participação ativa no cenário político.

UPDATE: sempre bom ler o blog do Dr. Ruy Medeiros (a quem não sou digno de chamar de tio… 😉 ). Ele fez uma advertência importante nos últimos parágrafos de um post em seu blog.

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