A mídia e o judiciário

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Parte do discurso de esquerda é que o Ministério Público e o judiciário, no âmbito da operação Lava-jato, usaram a mídia para construir uma narrativa de culpabilidade de Lula e do PT. Isso é inegável: Powerpoints foram apresentados, o juiz Sérgio Moro foi premiado em eventos midiáticos, etc. Segundo esse raciocínio, o uso da mídia serviria para garantir apoio popular ao trabalho desenvolvido pela operação.

As carreiras jurídicas tem diretivas deontológicas que objetivam limitar a espetacularização na chamada “operação do direito” (amigos juristas, perdoem o clichê). Juizes são proibidos de comentar casos que estejam aos seus cuidados, advogados não podem fazer anúncios de seus serviços, etc. Tradicionalmente espera-se discrição por parte de juízes e promotores em nome de uma aparência de neutralidade que deve existir.

Esse uso da mídia, ainda segundo o discurso esquerdista, demonstraria parcialidade. Os juízes e promotores argumentam, não sem alguma razão, que, ao lidarem com processos referentes à corrupção, enfrentam forças poderosas e, portanto, precisam capturar a atenção pública e garantir suporte popular nessas batalhas. Assim reduzimos essa questão à seguinte dicotomia: aparência de neutralidade sem exposição midiática, ou alguma exposição para garantir transparência e apoio popular a uma causa justa?

Essa é uma falsa dicotomia. O judiciário que aparece demais, geralmente acoberta interesses pessoais. Sérgio Moro, por exemplo, ao divulgar as conversas de Dilma com Lula, agiu em claro abuso de poder. Não houve uma voz, ao que me recorde, que defendeu aquilo. Erro judiciário crasso. E nada aconteceu com o magistrado. O que se quer dizer é que não se pode garantir que serão necessariamente interesses públicos a serem perseguidos com uma exposição midiática do judiciário, mas sim interesses próprios. Sério Moro errou, mas o erro foi primário, e não se pode acreditar que não sabia que aquilo era errado. Abusou do poder, e contou com uma mídia condescendente. Em qualquer lugar sério do mundo receberia punição correicional. Usou a mídia para descumprir a lei.

Mas também há um outro lado: embora a esquerda insista (assim como a direita, diga-se), ora com razão, ora por conveniência, que a mídia persegue, que a mídia distorce, etc., é forçoso admitir que a mídia tem um jogo próprio. Ela não se doma eternamente. Quando Sérgio Moro prolata uma sentença sem lastro fático, ainda que tenha enfrentado críticas, não sofreu, via mídia, nenhum ataque de reputação. Por mídia, entenda-se, mídia tradicional, não esse submundo da internet, que não é terra de gente. Claro, houveram artigos que apontaram as inconsistências, mas não se construiu uma narrativa de juiz parcial, que usou-se da mídia para, praticando ilegalidades processuais o tempo todo – invasão de competência, condução coercitiva, divulgação de escutas telefônicas, para citar apenas o mais conhecido. Havia um petista a punir.

Esse uso da mídia pelo Ministério Público e pelo judiciário é frequentemente sustentado com base em argumentos morais: a corrupção é imoral, os políticos são imorais, etc. Não havia uma defesa de métodos propriamente ditos, mas dos fins.

Petista punido, o que faz a mídia agora? Começa uma narrativa de assassinar a reputação do mesmo Sério Moro que dela se serviu, usando a mesma moral. Afinal, se os fins são justos, para que importa a legalidade? Refiro-me aqui ao uso do auxílio-moradia.

Todo mundo sabe que milhares de juízes e promotores recebem auxílio-moradia. Não é novidade,segredo ou invenção. É perfeitamente legal recebê-lo, ainda que se possa discutir sua moralidade. No entanto, qual o fato noticioso que justifica ligar Sério Moro e Marcelo Bretas a tal benefício? Claro, construir um discurso no qual essas “estrelas” do judiciário não são tão morais assim.

Isso é feito intencionalmente? Não sei. O discurso político de esquerda ou de direita normalmente diz que sim. Mas não me importa. O que me importa é a lição desse fenômeno: usar a moral para justificar operações jurídicas desinforma e atenta contra a democracia. Os juízes citados, em nome da moral, abusaram da mídia. E agora, a mídia deles se abusa.

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