A culpa é da gravata

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Uma das coisas mais chatas que existe é quando alguém compara o país de onde vem com o país onde mora. Eu às vezes critico algo aqui, porque morar fora não significa deixar de ser brasileiro. Mas não comparo. Há coisas fantásticas aqui, e coisas não tão boas na Noruega, e vice-versa. Mas permitam-me fazer uma exceção, até porque acredito que muitos vão se identificar com isso.

Primeiro, devo dizer que ando aqui “à paisana”: de bermuda e camiseta, portanto não sou identificável como advogado.

Fui a um cartório ontem, onde, para evitar trabalho, o tabelião mandou dizer que só a parte interessada pode solicitar um determinado documento. Detalhe: o documento é público, e qualquer um tem acesso. Não me identifiquei como advogado, e percebi que o tratamento é todo direcionado para não para resolver o problema do cidadão, mas para evitar trabalho que não seja gerador de renda para o cartório.

Depois, no outro dia, fui entrar no forum, esquecendo-me de que não é admitida a entrada de pessoas com bermudas – nem que apenas para usar o banco que lá funciona. A funcionária da recepção – super educada e um pouco constrangida, se ofereceu, como faz a qualquer um que precise, para arrumar uma calça para que eu pudesse entrar, mas acabei indo a uma lotérica.

O que me incomoda é que o Brasil não é exatamente um país frio, e essas regras absurdas persistem. Na Noruega – e aqui vem a comparação antipática – quando fui assistir a audiências lá, em algumas vi pessoas de bermuda ou de shorts, ainda que a temperatura naquele país não seja exatamente aquela do sertão baiano…

Andam mal as coisas quando a compostura é medida pela vestimenta, e não pelo respeito ao cidadão. É o país onde a gravata adiciona credibilidade de forma automática, seja o Zé da Esquina, seja o Eduardo Cunha. Eu não estou dizendo que a Justiça não precisa de seus símbolos para induzir respeito – mas estes deveriam ser usados pelo aparelho judicial,  e não impostos aos jurisdicionados em um país que se diz democrático e sujeito ao império da lei e da igualdade.

Para não ser injusto, fui a outro cartório, cujo atendimento impressionou pela cortesia e pela atenção dos funcionários, e pela forma com que se dispuseram a resolver a questão, o que demonstra que há esperança.

 

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