Corrida e companheirismo

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Faz tempo que escrevi aqui – esse é o primeiro post em 2015. Tarde pra desejar Feliz Ano Novo, mas, enfim…

Eu sei que existe uma tendência no meio esportivo de seguir dicas de praticantes mais experientes de esportes, de personal trainers, só porque estes acumularam alguma experiência. Eu não sou contra isso per se, mas sou adepto do fato de que determinadas práticas/produtos/dicas funcionam para uns e não para outros. Por isso fico sempre meio reticente em dar conselhos sobre corrida: no fundo, só sou alguém que corre. Não entendo nada de esporte, mas as pessoas imaginam que alguma coisa eu devo estar fazendo corretamente, já que corro há mais de 6 anos, sem nenhuma lesão significativa e com melhorias no meu desempenho apesar de diminuição no ritmo de treinos.

Esse meu ceticismo em relação a dicas, no entanto, não impede que vez por outra eu tente alguma coisa nova – afinal, sempre se pode melhorar. E às vezes gosto de ler sobre corridas para ganhar motivação, principalmente quando, no hemisfério norte, treinar se torna um desafio ainda maior por causa do clima. Mas é claro que a gente lê coisas contraditórias, como em uma Runners World que li no Brasil e que, em um mês, publicou uma dica de que não se deve se alimentar 5, 6 vezes ao dia, pois nós não fomos “programados” pra isso, e, páginas depois, vinha a sugestão de um nutricionista para fracionar a alimentação em porções ao longo do dia. Enfim…

Mas às vezes a inspiração não vem das técnicas, mas das atitudes. Li dois livros inspiradores sobre corridas – “Do que eu falo quando eu falo de corrida”, de Haruki Murakami, e “Nascido para correr”, de Christopher McDougall. Neste último, há conselhos bastante controversos, como a sugestão de correr com os pés descalços. Mas o que inspira nesses dois livros são os aspectos comportamentais da corrida, que me inspiraram bastante.

No livro do Murakami, o autor narra períodos de “running blues”, ou certa falta da vontade de correr – isso creio acontecer com todos de tempos em tempos. Mas no “Nascido para correr”, não obstante várias histórias interessantes (mas nem sempre verossímeis, dirão alguns), algo me chamou a atenção: no livro, o autor questiona a razão da aptidão nata dos Tarahumara, tribo indigena do México, para as corridas de longa distância. E uma das explicações dele é o companheirismo durante a corrida.

Claro que companheirismo na corrida pode ser apenas um truísmo, uma filosofia de botequim, um desses conceitos de “auto-ajuda” do qual estamos impregnados hoje em dia. Mas, embora eu não seja superticioso, acredito haver algo nisso aí.

Eu sempre preferi correr sozinho, pois podia correr no meu ritmo, ouvindo minha música. Conheci alguns amigos e comecei a correr com eles. Mas cada um corria no seu ritmo, e era quase como correr sozinho. Os Tarahumara correm em duplas, segundo o livro. Então chegou uma época quando meus amigos tiraram umas férias das corridas, por lesão, e só um deles estava disponível. Treinamos juntos e, alguns meses depois, foi a minha melhor maratona. E não que ele imprimisse um rimo mais forte – corríamos até controlando o ritmo, embora ele fosse bem mais rápido que eu. Foi um período muito bom de bons treinos.

Depois, já aqui em Oslo, comecei a correr com outro amigo, corredor desde sempre, mas que estava meio parado, portanto correndo mais devagar que eu. Como passei meio que a preferir correr acompanhado (mesmo sem ter refletido no tal do costume dos Tarahumara), não me importava, e fazíamos treinos longos a uma velocidade que, para mim, não era desafiadora, mas que era muito mais prazeirosa. O resultado: treinando com alguém por seis meses, em um ritmo tranquilo, rendeu resultado melhor do que dois anos e meio treinando sozinho: fiz minha melhor maratona até então.

Claro, em corrida há o aspecto psicológico, há o treinamento, há a alimentação – todos são fatores decisivos. Não vou aconselhar ninguém a correr com alguém baseado em o que seria uma crença, tradição ou talvez até superstição. Mas parece que, para mim, tanto na corrida como na vida, dividir a batalha com alguém parece render mais do que se matar individualmente.

Eu ainda faço a maioria dos meus treinos sozinho, que é quando treino no meu ritmo e aprendo mais sobre limites, sobre minhas próprias características ao correr. Mas tenho cá pra mim que são os longões recheados de “resenhas” (não sei se essa gíria é baiana, nordestina, ou brasileira) que mais contribuem para resultados e experiências mais realizadores.

 

Autor: oculos

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