De onde você é?

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Eu sou daqui! 🙂

Ser brasileiro, em muitos momentos, é um privilégio: certas questões não nos causam dissabor ou mesmo trauma. Um exemplo é o fato de aceitarmos bem quem é de origem diversa, e nosso complexo de vira-lata tem um lado bom que é justamente a supressão da xenofobia. Claro, noves-fora a quantidade de idiotas que reclama da acolhida que o Brasil recentemente tem dado aos imigrantes de países pobres, ou mesmo da extensão do programa Bolsa Família a estrangeiros, muito embora eu acredito que esse pensamento pequeno se trata mais de um movimento reacionário recente, do tipo “foi o PT que fez? Soy contra!”, já que quero crer que o brasileiro médio – se é que existe algo médio no Brasil (tudo parece ser extremado) – sempre é solidário: “mesmo quando as minhas mãos estão ocupadas em torturar, esganar, trucidar, o meu coração fecha os olhos e sinceramente chora…”. Não digo aqui que não temos preconceitos ou que não somos racistas, mas que o problema da xenofobia, no Brasil, não tem uma dimensão preocupante, e espero que continue assim.

Mas, como sempre, saí do assunto. O que eu quero dizer é que nós adoramos fazer novas conexões, nos comunicar, descobrir nossas origens, já que muitos de nós tivemos antepassados que foram jogados aqui, trazidos como escravos, como degredados ou como auto-exilados para tentar a sorte no novo mundo. Talvez seja isso que nos tenha acostumado a uma busca por uma identidade mediata, já que a identidade brasileira, imediata, substituiu aquela identidade originária. Por isso há o banzo de se conhecer um pouco mais do passado, de se saber de onde veio. Claro, o mesmo complexo mencionado no começo do texto às vezes motiva essa busca, mas também há aquela feita mesmo pela questão da identidade, ou pela história interrompida, como imagino que seja o caso de muitos de nós com ascendência africana (ainda que a minha não apareça tanto na pele). De toda forma, não se é menos brasileiro por não se ter origens no Brasil, e ter origem estrangeira, via de regra, não enseja preconceito além dos estereótipos.

Algo que me chamava a atenção nos primeiros meses de Noruega é que nós, estrangeiros aqui, sempre que víamos alguém com fisionomia fora do padrão loiro-branco-olhos-claros, sapecávamos a pergunta: “de onde você é?”. A pessoa, um tanto exasperada (normalmente ela já sabia onde aquilo ia dar), respondia “daqui da Noruega”. E aí nós, “inocentes”, insistíamos “sim, mas originariamente, de onde você é?”. Com o tempo, percebi que isso é meio que um tabu: a imigração por aqui é recente, e o país ainda tem seus percalços a lidar com isso. Os jovens, filhos de pais que vieram nas primeiras levas de imigração dos anos 70, não se sentem tão confortáveis em ver sua “norueguesidade” nagô questionada, quer porque são muitas vezes vítimas de preconceito (ou porque seus pais o foram), quer porque no debate político suas religiões-cores-etnias muitas vezes são questionadas, como a demonstrar que eles não seriam 100% noruegueses, ou porque simplesmente a pergunta é um pouco invasiva, e tudo o que é meio invasivo aqui não é tão aceito como no Brasil. No começo me impressionava que ninguém me perguntava de onde eu vinha, e eu sempre ficava empolgado quando alguém o fazia, pois era sinal de interesse em conversar, em fazer contato. Seja qual for a razão da reserva com a pergunta, aprendi que aqui o “de onde você é?” possui várias acepções, diferentemente do Brasil, onde é apenas um início de uma conversa ou a demonstração do interesse em conhecer alguém mais a fundo.

Nesse aspecto, acho que a tragédia da nossa história talvez tenha forjado uma conciliação entre identidade e pátria, entre origem e presente, que talvez só exista em certa medida nos Estados Unidos. Infelizmente, a Europa, origem do próprio conceito do que é ser cosmopolita, consegue ser tão retrógrada e não permitir que questões de mera identidade sejam tratadas como tal, mas sim como ameaças ao exercício de direitos ou mesmo de vias de demonstração de puro preconceito. E tragédia não faltou à Europa…

 

Autor: oculos

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