Imigração e integração

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Uma hora dessas vou estudar com vontade a história da imigração no Brasil, a ver se aprendo o que aconteceu para que a presença de povos tão diferentes não tenha gerado uma sociedade dividida entre castas raciais ou religiosas (noves fora a recente e isolada delinquência contra bolivianos em São Paulo).

Digo isso porque li algo no Aftenposten, jornal aqui da Noruega, sobre um casal de curdos que se sente perseguido por não adotar as práticas islâmicas. Ou seja, fugiram do Irã por causa do Estado Religioso, e agora são vítimas de bullying nesse outro país por parte de muçulmanos mais radicais. Conta o artigo que uma senhora cuspiu na iraniana após ter se recusado a vestir suas filhas de forma mais, digamos, condizente com os preceitos muçulmanos.

Eu sempre me pergunto porque um país desenvolvido tem tanta dificuldade de resolver questões como essas. Não é que eu seja ingênuo ao ponto de achar que no Brasil essa integração foi sempre uma maravilha. Não. Sei que turcos (na verdade libaneses), mesmo cristãos, foram vítimas de preconceito na Bahia, ao ponto de, infelizmente, quase não falarem mais seus idiomas ancestrais no Brasil. Sei que os japoneses também foram vítimas de perseguição, inclusive em razão da II Guerra Mundial. Sei que a herança escravocrata gerou um fosso de integração. Mas talvez essa noção do  “homem cordial” explique a razão para que o conflito com estrangeiros não seja marcante em nossa sociedade.

Ou talvez a miséria e as duras condições de fazer a vida na America do Sul tenham sempre sido problemas principais a lidar e que provavelmente preenchia nosso dia-a-dia, não nos dando tempo para alimentar luxos de segregação – sei lá.

É que aqui na Noruega vejo dois lados que parecem sintoma de uma certa esquizofrenia: de um lado, há um país disposto a adotar valores de tolerância, de pluralidade, com respeito às origens de cada um, aceitando e incentivando essa diversidade. Aqui, por exemplo, crianças têm aulas em seu idioma natal. Por outro lado, há um país que não se deixa integrar. Tudo o que é estrangeiro parece um tanto quanto exótico demais, barulhento demais, diferente demais. Não sei se o norueguês típico é exatamente bairrista, mas com certeza gosta muito de tudo o que seja tipicamente norueguês. Costumo brincar com meus amigos noruegueses que nunca entendi porque os Vikings, tendo viajado meio mundo, sempre voltaram pra cá (bom, alguns ficaram na Normandia…). É um pais lindo, claro. Mas caramba, que frio que faz aqui! 🙂

É claro que a comparação com o Brasil é complicada, porque já deixamos de receber imigrantes faz tempo, e estamos agora a fazê-lo. Mas sinto que será diferente. Sinto que nossa velha crença de que “coração de mãe sempre cabe mais um” sempre nos distinguirá como um país acolhedor. Mas sei também que somos briosos, do tipo “somos assim, aceite se quiser”. Acho que há uma certa Lei do Imigrante no Brasil que diz que, para viver nesse país, todos são bem-vindos, contanto que aceitem que aqui (lá) sempre se perderá algo do que se é para se tornar brasileiro – com todas as maravilhas e desgraças que isso significa.

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