Dilma e FHC: é tudo questão de boa vontade

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Há algo na política brasileira que me parece tão ruim quanto a corrupção, quanto a incompetência, enfim, quanto à irresponsabilidade dos tais representantes do povo: a falta de diálogo honesto.
Explico através de um exemplo: a nossa presidenta, ao propor uma reforma política, teria enviado um emissário ao FHC para sondá-lo sobre a proposta. Depois todo mundo começou a descer lenha na Excelentíssima Senhora, por várias razões: que a medida seria juridicamente incorreta, que a reforma política não resolveria nada, que não era isso que o povo tava pedindo, que as questões seriam complexas demais, que seria demagogia, etc. Todo mundo, até o próprio FHC.
Eu, otimista em relação às pessoas talvez por um vício de ingenuidade (ou, como diria o sabichão Gilmar Mendes, por ser muito “naífico” de minha parte), acredito que a presidenta foi bem intencionada. Sim, o que as ruas estão pedindo pode requerer ou ruptura ou consenso. Ela buscou diálogo, e talvez terá sido vítima das próprias boas intenções. Agora nenhuma das vozes que se levantou para criticá-la apontou caminho algum.
Acho mais: acho que a presidenta tentou e tenta, corretamente, ao meu ver, utilizar o clamor popular como catalisador de reformas que são impossíveis em governos de coalisão. Daí tanta resistência e maledicência.
O que acho incorreto é que o tal traíra, digo, ex-presidente FHC, venha criticar as propostas (como se não tivesse nunca apresentado proposta semelhante), sem reservar um pingo de boa vontade a alguém que teve o gesto de buscar diálogo. A boa vontade poderia ser do tipo “olha, não concordo com isso que ela está a propor, mas acho louvável que busque ouvir diferentes setores”. Nem isso se ouviu dele. Mas Dilma, com seu gesto republicano, é queimada em praça pública. E o tal “príncipe” ouvido como autoridade. Porque em política não se dá asa a cobra, deve ter pensado o tal “estadista”. FHC só elogia Dilma quando esta lhe faz algum afago.
Você, leitor cético que simpatiza com o PSDB, poderá até dizer que ela buscou ouvir FHC com segundas intenções, como, por exemplo, legitimar uma eventual barbeiragem. Mas ainda isso seria legítimo e desejável – ou o PSDB diz o que quer e acha correto ser feito, ou então assume que não tem o que dizer, que prefere o “quanto pior, melhor”. Não seria melhor se os partidos começassem a dialogar sobre o que realmente pensam ser o melhor para o país (não aquele diálogo da barganha nas votações do congresso, bem entendido)?
Gostaria que no nosso país as pessoas tivessem menos senso de preservação política e mais vontade de governar direito, de ouvir todo mundo. Mas quando até Renan Calheiros tenta sair de bonzinho, percebe-se que a política que interessa ao eleitorado só é feita quando o público parece estar assistindo.
Isso noves-fora a mania do brasileiro de só respeitar bacharel (não é a toa que advogado é tratado por “doutor”). A Dilma apresenta uma proposta de constituinte restrita, e descem o malho nela porque constituinte não poderia ser restrita – como se esse tecnicismo só conhecido por bacharéis de direito fosse mais importante do que o que foi realmente proposto: uma reforma política feita não pelos atuais representantes, devido à contaminação da tal reforma com o corporativismo e o fisiologismo, como se essa idéia não fosse interessante. Focam-se em um preciosismo jurídico absolutamente irrelevante.
Esse mis en scene dos políticos dá nojo.
Não digo que acho que o governo agiu corretamente quanto à catarse coletiva das últimas semanas. Está colhendo o que plantou por ter deixado de ser um governo popular, conectado com as bases e com a militância – muito embora duvido que teria sido eleito se tivesse se apresentado como governo popular, vide a tal Carta aos Brasileiros, vide as coligações, vide a tal peemedebização. Se o PT tivesse sido PT desde sempre, nunca teria sido eleito.
Mas brasileiro gosta é de político cheiroso, que fala francês. Se o PT não tivesse usado Hugo Boss (ou bebido Romanée-Conti), talvez isso que acontece agora não teria acontecido. Mas talvez o PT não estaria no governo se não tivesse tomado banho de loja. Porque Romanée-Conti ou Hugo Boss só quem pode usar sem ninguém se incomodar é o PSDB.

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