O fascismo disfarçado de defesa da lei e da ordem

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O brasileiro é um povo contraditório, para dizer o mínimo. Um dia vi um vídeo em que Lobão dizia que o brasileiro exaltava tudo o que é brejeiro, delicado, apesar de ser um dos povos mais violentos do mundo. Claro, Lobão já produziu muitas diatribes, mas essa é uma que não posso deixar de concordar.

Quando o resto do mundo se engaja em alguma manifestação, algum patrimônio acaba sendo degradado. Só se consegue assustar os governos quando se ameaça romper a ordem. É assim que as coisas tendem a funcionar.

Mas, para que não se diga que estou aqui a defender a depredação do patrimônio público ou privado, deixa eu explicar onde quero chegar:
O brasileiro tolera tudo. Tolera a destruição ou subtração do patrimônio privado, principalmente de quem não vive em condomínio fechado, nem tem carro blindado, nem segurança. O brasileiro tolera a destruição da vida, que ocorre todos os dias com nosso sistema de saúde precário, nossas estradas vergonhosas, nossa criminalidade assustadora.

Mas o que o brasileiro reacionário não tolera é a destruição do patrimônio feita por manifestantes. Nessa hora, uma bafejar de fascismo cai sobre todos. “É preciso defender a ordem”, dizem. É como se as pessoas que protestam devessem aceitar caladas e domesticadas toda sorte de mazelas que se sofre todo o dia. E é provável que essa opinião tacanha vem sempre de alguém que não precisa de ônibus, que tem algum conforto, que não utiliza serviços públicos, etc.

Algumas pessoas não compreendem que essa destruição vem de um represamento de frustração resultante de uma sociedade excludente e que já não oferece mais possibilidades de realização pessoal. A destruição vem da revolta contra um sistema que só funciona para alguns. E fica fácil rotular qualquer destruição como “vandalismo”.

Mas a pior e a mais vergonhosa manifestação desse fascismo acontece quando esses excessos de manifestação (que, vamos e venhamos, nem são tão excessivos assim – na França, como já bem repisado na internet, foram 300 carros queimados. Outros tantos em Estocolmo. No Brasil foram quantos mesmo, noves fora a viatura da polícia quebrada… pela própria polícia?) passam a merecer, segundo essas pessoas, a enérgica reação da polícia, como se a integridade física das pessoas fosse um direito comparável à integridade patrimonial. Como se o direito à vida fosse menor em razão da propriedade. Assim, um pequeno excesso passa a justificar gás lacrimogênio, bala de borracha, tortura, agressão e o diabo a quatro.

Somos o perfeito “homem cordial”. A casa tá caindo, o país voltando a priorizar quem tem em detrimento de quem não tem, as pessoas perdendo o direito de se manifestar, mas o que as pessoas conseguem enxergar é só um “ah, mas estão destruindo o patrimônio público.”

Chega isso de querer domesticar quem vive sendo colocado debaixo do tapete nesse país!

E ainda vêm dizer “tem excesso de lado a lado”! É espantoso isso. Primeiro, porque ignora-se que a polícia tem a obrigação de não ser excessiva, porque se espera, ou melhor, se exige, que esteja preparada. Não é que o cidadão tenha direito de ser violento. Mas a polícia tem o dever de não ser violenta. Segundo, porque claramente se vê que o tal “excesso” da polícia está sendo completamente desproporcional. E, por último, as pessoas parecem tão acostumadas a justificar os excessos da polícia (porque sempre é contra pobre, sempre contra bandido, sempre contra alguém que não é você ou eu) que se alienam completamente da noção de estado democrático de direito, dos valores de uma democracia, de que optamos, ainda que apenas no papel, por ser civilizados, por não usar o poder estatal para a violência, etc.

Mas claro, o pensamento tipo TFP tem horror a protesto, tem horror à indignação. E aí um eventual dano ao patrimônio público causa a hipócrita indignação, eis que esse nojinho pela destruição do patrimônio público não costuma causar tanto furor quando é feita dentro da ordem e da lei… E como se o dano ao patrimônio privado (pichações, vidros quebrados) não pudesse ser suportado em nome de uma causa justa e maior.

Ou aprendemos que as mudanças não vem com flores, e que é preciso indignação constante e medo de quem governa, ou nossa eterna cordialidade vai permitir que viremos uma sociedade facista, mera caricatura de democracia.

P.S. Repito – não que eu creia que tenha havido tanto excesso assim por parte dos manifestantes. Mas como parece que o único argumento contra as manifestações tem sido esse…

ATUALIZAÇÃO: Esse post provavelmente foi o mais acessado em curto espaço de tempo na história desse blog. Muito obrigado! Acho que, pela reação no Facebook, parece que muita gente concorda que, em uma sociedade tão desigual, não se pode esperar que o parto de uma mudança não seja doloroso.

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