Maratona de Madrid

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Eu sempre encarei a corrida como um esporte solitário. Correr é algo um tanto introspectivo: é um esforço individual em que sua mente, suas pernas e seu treinamento lhe conduzem pisada após pisada. Durante a corrida, os fatores externos costumam ter menor importância.

Mas confesso que encarar a corrida como um retiro de isolamento já é tão automático que os tais fatores externos começam a fazer falta, e com eles vêm algo que estava perdendo como corredor: a alegria ao correr. Essa alegria vem da endorfina, mas vem também de correr com amigos, de ver gente na rua, de ter um dia bonito como cenário.

Aqui na Noruega já andava perdendo o gosto pela corrida, confesso. Meus amigos que corriam comigo no Brasil aqui não estão, e, sem eles, correr não é tão divertido. Esse inverno foi tenebroso, o que não ajudava: correr com medo de escorregar no gelo (isso quando se tem coragem de sair de casa a -2 graus, meu limite para correr na rua) ou com o céu parecendo que está com raiva dos humanos não é decididamente divertido.

Assim, essa maratona tinha tudo para ser um fiasco. Fazê-la seria apenas cumprir tabela, já que este é o quinto ano em que tento correr 2 maratonas por ano. No entanto, havia um motivo especial: dois dos meus amigos corredores viriam à Europa para essa corrida. Dane-se o mau treino, dane-se ter comido feito um louco uma semana antes em conferências e hotéis, dane-se estar resfriado – correr com amigos é o que faz desse esporte individual (que ironia!) o mais natural dos esportes. Na verdade, no livro “Born to Run”, uma das explicações do autor a respeito de tribos mexicanas (Tarahumara) que adotam a corrida como hábito de vida é justamente a “solidariedade” com que correm – o respeito pelos companheiros, a ajuda mútua e preocupação com cada parceiro de corrida, etc. Enfim, não sei se essa explicação faz o sentido biológico que o autor do livro pretende emprestá-la, mas devo dizer que há algo especial na amizade de quem corre junto.

De sorte que deixei o frio nórdico para encarar… o frio ibérico e lá correr. Não dei sorte, pois o tempo estava horrível. Azar meu, que pensei que nessa escapulida poderia pelo menos recarregar a vitamina D e apressar a chegada do verão (ou pelo menos tomar um atalho para sentir um calorzinho). Chovia em Madrid, e o tempo estava horroroso. Mas foi muito bom escutar uma língua latina, falar português por 3 dias, ver meus amigos, “resenhar” (em linguagem conquistense, bem entendido) e completar minha nona maratona, que tinha tudo para repetir o fiasco da segunda, em Curitiba.

Terminei em 3:27 e alguns quebrados, curiosamente o meu quinto pior ou melhor tempo, bem atrás de Paulo e Marcelo, que fecharam em 3:12 e 3:14. Ainda detenho o recorde do grupo, o que é um consolo meio agridoce, já que quem vive de passado… 😉

Mas agora vem o verão, e vou me preparar melhor para a próxima (maratona de Oslo em setembro). Mas, ainda que faça um tempo melhor, não será a mesma coisa correr sem os pedinhas.

Paulo, Marcelo e Francis

Paulo, Marcelo e Francis

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