A campanha política de esgoto

| 5 Comentários

A campanha política de esgoto é a maior demonstração de covardia que alguém pode fazer.

Antigamente, a política de esgoto tinha seu expoente máximo nas famosas cartas anônimas, ou nos panfletos apócrifos, colocados na calada da noite por debaixo das portas.

Tais cartas continham geralmente ofensas ou difamações, destinadas a quebrar a moral de algum adversário. As acusações poderiam ser desde uma possível corrupção (verdadeira ou não), até a difamação rasteira e preconceituosa (como dizer que alguém é homossexual). Essas últimas, embora nenhuma relação tivesse com o caráter ou austeridade do adversário, constituía-se em aproveitar do preconceito para proveito político.

Hoje as cartas e panfletos foram substituídos pela internet e por suas redes sociais, e o alcance sobre reputações é mil vezes mais devastador.

Mas quando um anônimo, por covardia, faz uso de perfis falsos para dizer aquilo que às claras e em uma sociedade civilizada não poderia ser dito, a pergunta que não quer calar é: até que ponto um candidato pode ser responsabilizado por isso?

Tenho acompanhado de longe a campanha política pela internet, principalmente a da minha cidade, Vitória da Conquista. É claro que esse acompanhamento restringe-se ao que posso ver online, e, a se julgar pelo conteúdo disponível nos blogs, redes sociais e meios de comunicação, eu diria que um por cento é proposta, nove por cento é enrolação típica de político desacostumado à sinceridade, e noventa por cento é esgoto.

Vi coisas como caricaturas horrendas onde um candidato era comparado a Hitler (em um claro desrespeito ao comparar política considerada ruim com o holocausto), até outra em que seu oponente era vítima de montagens constrangedoras, uma delas colocado ao lado de determinada vilã de novela. Vi até mãe de personalidade ser injuriada. Enfim, campanha tosca, de sarjeta mesmo. Justo em Vitória da Conquista, onde todo mundo bate no peito com orgulho de viver em cidade politizada. Faz-me rir…

Não vou ser hipócrita e dizer que acredito que os candidatos não têm conhecimento do esgoto que suas campanhas publicam. Não consigo acreditar que alguém dedique horas e horas de seu tempo produzindo material que requer certa perícia técnica sem remuneração ou estreita cooperação com a campanha.

Mas fazendo de conta que sou idiota (o que é sempre uma possibilidade), e para que não se diga que não analisamos a coisa toda por todos os prismas possíveis, vamos admitir que esse esgoto de baixarias que circula pelos porões da internet não tenha qualquer vinculação com as campanhas. Vamos dizer que essa podridão venha de simpatizantes dos candidatos, que agiriam à revelia destes. Afinal de contas, qualquer criança de 10 anos sabe usar um Photoshop, não?

A pergunta aqui é a seguinte: por que os candidatos não vêm a público desautorizar esse tipo de campanha? É inconcebível que alguém com alguma escolaridade consiga manter simpatia pelo comportamento covarde de quem ofende e se esconde. E é impossível que se consiga manter imaculada a simpatia por determinado candidato quando se vê que sua equipe ou simpatizante (o leitor julgue aqui de onde vem o esgoto) é capaz de perder qualquer escrúpulo de decência no intuito de ganhar uma eleição.

O problema é agravado por algumas realidades inescapáveis: a primeira delas é que nosso judiciário, bem como o aparato policial, é inapto para lidar com o desafio que se apresenta diante de nós, a saber, manter a internet livre como espaço democrático para a liberdade de opinião e, ao mesmo tempo, assegurar a honra e a dignidade dos ofendidos. As liminares de retirada de conteúdo são lentas, a intimação dos provedores de conteúdo é feita com vagar, a investigação é existente apenas em determinados centros de excelência e há falta de conhecimento técnico de muitos no que diz respeito ao modo mais eficaz de coibir os abusos. Mas a culpa não é só do judiciário ou das outras autoridades. Outro desafio enorme é que a grande qualidade da internet – espaço livre para o exercício da liberdade de expressão – é também seu maior problema: a menos que se adote a postura ditatorial da China, é impossível controlar todo o conteúdo da rede. Algo retirado pela justiça agora ressurge imediatamente em outro lugar, possivelmente fora do alcance de nossa jurisdição.

Então, se não podemos contar com a postura exemplar dos candidatos em reprimir a baixaria, se não podemos contar com as autoridades para que o problema seja minimizado, qual a solução?

Não acredito que há caminho fácil. Acredito, tão-somente, que cada eleitor deve demonstrar repúdio ao anonimato na campanha política. Ainda que a propaganda seja útil, verdadeira ou correta. O anonimato é covarde, impossibilita a defesa e o argumento, e impede a responsabilização por abuso. Diz mais sobre quem profere a ofensa do que a quem pretende ofender. O repúdio pode ser por bloqueio, por denúncia ou por indiferença. Quando um eleitor dá repercussão a uma ofensa, torna-se cúmplice. É necessário que se analise criticamente uma campanha política.

As pessoas precisam começar a demonstrar indignação. Nossa aceitação a esse tipo de campanha política significa desprezo a valores de convivência e civilidade que, por certo, não gostaríamos de ensinar a nossos filhos. É preciso que a mudança não venha por leis, por força das autoridades, mas simplesmente porque a sociedade não pode admitir essa violência, sob pena de que a barbárie vença e substitua a civilidade que buscamos.

Os vilões da reputação são criminosos. Se o são por dinheiro, são meretrizes de consciência. Se o são por ideologia, o passado já demonstrou que o jogo sujo em nome do poder só resultou em tragédia. Nessa história toda, não existem vitoriosos. Os perdedores são todos, mas o principal perdedor é a nossa tão incipiente e rasa democracia, que não conseguiu produzir até agora, a despeito de tantas leis regulando eleições, candidatos comprometidos com a discussão limpa, com respeito ao adversário e maior ainda pelas liberdades civis que deveriam ajudar a proteger.

FireStats icon Produzido pelo FireStats