A política e o Facebook

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Resolvi escrever esse post porque estou cansado de ser cricri, ou de parecer cricri, melhor dizendo. É que cada vez que emitimos uma opinião via Twitter, Facebook, ou por outra forma pública de comunicação, o que é apenas uma opinião pode passar a ser visto como patrulhamento, e isso acaba gerando discussões desnecessárias.

Caso em análise: a propaganda eleitoral no Facebook. Houve muita manifestação espontânea contra o excesso de postagens relacionadas a candidaturas para as próximas eleições. Após tais manifestações, várias “contra-manifestações” surgiram, no sentido de que estaria havendo uma despolitização da rede social, e isso também seria indesejável.

Como participei das manifestações de que não queria ver propaganda política no Facebook, achei por bem escrever esse post para explicar a minha posição e o que acho do assunto.

Há duas esferas nas quais o Facebook (e outras redes sociais) se enquadram: uma esfera privada, ou seja, de que se trata de uma rede de contatos previamente aprovados, e outra pública, no sentido de que o conteúdo postado acaba sendo visto por pessoas diversas.

A esfera privada permite que eu selecione quem aceito que leia as minhas diatribes ou idiotices, quem pode saber que acabei de comer um pastel com caldo de cana, ou das minhas experiências digestivas em relação a determinada pizzaria. Claro, muita gente adiciona gato e cachorro porque tem outros objetivos com a rede, mas atrevo-me a dizer que a maioria adiciona as pessoas com quem tem algum vago contato a fim de integrar-se a elas e permitir que elas se integrem à esfera privada de cada um.

Nesse sentido é que sou absolutamente contra propaganda de candidatos no Facebook, porque acredito que isso é de mau gosto, é de péssima educação utilizar-se da confiança de quem lhe adicionou para torná-lo apenas um voto em potencial. Em suma: se já somos produtos de marketing no Facebook, passaremos a ser, também, produto de voto em potencial.

Acho que os candidatos poderiam criar suas páginas no Facebook e permitir que os simpatizantes as integrem. Mas fazer propaganda de candidato específico significa tornar uma esfera privada em casa da mãe Joana, submetendo seus amigos que te fizeram o favor de te adicionar ao Facebook e que tem seus candidatos (ou que os escolhem não por causa das lindas fotos das propagandas) a suportar o constrangimento de ser submetido a um bombardeio de nomes completamente desconhecidos politicamente e que querem se aproveitar de uma popularidade virtual para fazer nome. Como não me considero mercadoria nem moeda de troca, não aceito que cabo eleitoral nenhum me use como estatística para justificar seu peso político para seu candidato. Além, é claro, do mau gosto. Assim como não entro na casa de ninguém pedindo voto pra as pessoas (a não ser para as pessoas de minha confiança, as quais recomendo determinado candidato), não quero ser submetido a pedidos de votos em uma rede onde, teoricamente, selecionei a quem quero me expor.

Já a esfera pública do Facebook recomenda uma certa dose de cautela: o que é postado no Facebook será visto por todos os contatos da pessoa, e talvez até por um número ilimitado de pessoas, considerando os compartilhamentos e o descuido de muitos com a privacidade. Se tenho tolerância com amigo que posta alguma mensagem religiosa, o tenho porque se trata de amigo e vivemos em um mundo onde temos que conviver também com as diferenças. Se esse amigo(a) acredita que sua opinião deve ser repartida com todos, apesar dessa dita opinião colidir com a minha, vejo que se tratará apenas de divergência de credo, gosto, etc., coisas com as quais convivemos em um mundo civilizado. Por isso, tolero (até certo ponto) as postagens sobre times de futebol (não dou a mínima pra futebol, acho ridículo um time ser melhor que o outro – não são apenas pessoas com camisas diferentes?), religião, política, direito dos animais ou o que for. Eu, particularmente, nem sempre posto coisas desse tipo – prefiro falar do que penso, do que acontece comigo, para manter meus chegados informados, e também para saber o que eles têm feito da vida. Sei que outros pensam diferente, e gostam de compartilhar o que acham ser do interesse de todos os seus amigos, e tenho que respeitar isso., seja por força da amizade, seja porque a minha forma de ver o Facebook não é a única.

Mas quando há abuso dessa confiança, e a rede é usada para constranger as pessoas (compartilhe se você crê em Deus, clique aqui se você vota em fulano, etc.), ou quando é usada para transformar a audiência em número de possíveis consumidores, eleitores, etc., aí não acho de bom gosto abusar da confiança. Outra coisa completamente diferente é a discussão política. Acho legítimo discuti-la no Facebook. Só que vejo muito menos discussão política e bastante marketing político. A quem isso interessa? Agora mesmo, por exemplo, vejo uma discussão enorme no Facebook entre os noruegueses sobre os pedintes oriundos da Romênia. Saudável ver tanta gente discutindo uma questão séria – o respeito aos direitos humanos e a crescente presente de gente necessitada em um país que a isso talvez não esteja lá tão acostumado. Saudável a adoção de causas – gente que protesta por direitos em que acreditam, apesar de isso às vezes mascarar um vazio ideológico de pessoas que aderem a tudo o que está na moda, sem se envolverem com nada de verdade – ou será arrogância minha achar isso? De todo modo, parece-me que o uso das redes sociais como se fosse uma terra de ninguém acaba gerando uma cacofonia desagradável. Ao invés de nos conectarmos, de discutirmos, viramos reprodutores em massa de causas que não são nossas, com as quais não convivemos, apenas porque achamos bonito ou justo. No caso de causas bem intencionadas, tudo bem. Mas no caso de algum imbecil que se candidata, posta uma foto e nela “marca” o nome de TODOS os seus contatos, apenas para divulgá-la, vejo um abuso da saudável (apesar de cacófona) interação da rede, e contra esse tipo de abuso é que estamos nos insurgindo.

As postagens de causas, religiões, times de futebol, são chatas e irritantes, mas não são mal intencionadas, ou pelo menos não são feitas para dar vantagem a quem posta. Já as propagandas eleitorais transformam os usuários em produtos, e isso acho indesejável.
O bom senso recomendaria a candidatos a usarem o Facebook, sim, mas de maneira que não invadam a esfera privada ou que quebrem a confiança dos amigos para, dela se aproveitando, venham a pedir votos.
Mas, enfim, é apenas meu jeito de ver as coisas. Assim como jogaria o santinho no lixo, no Facebook bloqueio o chato.

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