Desabafo: Paulo Francis

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A Folha, nas últimas semanas, têm promovido, em seus artigos, uma reedição dos textos de Paulo Francis. Primeiro, foi usado amplo espaço na Ilustrada. Depois, em colunas de opinião, como a de Ruy Castro de hoje.

Não entendo, como é que em pleno ano da graça de 2012, reeditam Paulo Francis. Pra mim, é como reeditar “Mein Kampf”. É digno de nota que a mídia se escore em um suposto valor intelectual de Paulo Francis para tolerar seu chauvinismo, seu racismo, seus pensamentos discriminatórios, etc. É como se o jornal usasse as palavras de Paulo Francis para, usando-se da escusa da excentricidade deste, dizer aquilo que pensa mas que não poderia dizer diretamente. Essa matreirice da mídia pode até enganar a alguns, mas, a mim, não passa de uma forma de poder voltar a dizer aquilo que, por avanços sociais e que tais, não poderia dizer hoje.

Paulo Francis deveria ser banido da história da mídia do Brasil. Deveria haver vergonha ao citá-lo. Mas não: há um deslumbramento! As ressalvas que se fazem às maluquices que dizia, feitas sempre rotulando-o de polêmico, contraditório, complexo, são apenas desculpas esfarrapadas para justificar o injustificável comportamento de um reacionário racista. Fosse eu ou qualquer um a dizer o que esse cidadão dizia, e já estaria a ser linchado na rua. Mas era Paulo Francis, dando uma roupagem intelectual, quase cult, ao preconceito. E, por ser quase cômico, era, talvez por isso, também aceito.

Um país, um povo que se respeita, não pode aceitar o culto a alguém que dizia “pérolas” como essa:

“COLLOR
“Collor fala como a gente, isto é, como as pessoas com quem convivo. Os nossos ‘ilustres’ em geral estariam melhor num circo. É alto, bonito e branco, branco ocidental. É outra imagem do Brasil, com que fui criado, francamente””

Ou, citando a Folha de São Paulo: “Num artigo em que contava de sua irritação com um garçom “crioulo” em Nova York, escreveu: “Pensei logo numa chibata”.”

Preciso realmente dizer mais? É, hoje, aceitável que um jornal repita uma vulgaridade racista dessa a fim de ressuscitar alguém tão retrógrado, tão incompatível com nosso espírito do tempo? Aliás, se Paulo Francis teve algum valor, que seja ressuscitado por tal suposto valor, mas não pelo que tinha de pior. É como se Monteiro Lobato fosse, hoje, endeusado pelo que tinha de pior, quando, na verdade, há sempre constrangimento ao lembrar do quão reacionário Lobato foi. Mas, no caso de Paulo Francis, há um mal disfarçado prazer em relembrá-lo justamente no que ele tinha de pior, e isso diz muito sobre o tipo de imprensa porca que temos hoje.

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