Domingo

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Domingo de manhã, rotina de sempre: ler jornal, tomar café, assistir a um filme, pensar em tomar coragem para ir correr, etc.

Abro o jornal e leio uma das manchetes: “Cotidiano: mulher é encontrada sem olhos e sem pele em Mairiporã.” Pergunto eu: “Cotidiano”?!?!

É o mundo cão de volta, depois de dois, três dias de paz com o universo.

Na semana que passou, fui voluntário junto à faculdade para receber os novos estudantes intercambistas. Sim, aqui é muito comum receber estudantes que saem dos seus países para cursar um semestre em outra faculdade. Com currículos mais flexíveis, é uma excelente oportunidade para treinarem o inglês e adquirirem experiência internacional, ainda que a diferença cultural não seja assim tão acentuada entre os países da Europa, de onde vêm a maioria. OK, as diferenças são grandes, mas pequenas aos olhos de quem vem de outro continente, como eu.

A semana foi um sucesso. É sempre bom conhecer gente de vários lugares do mundo. As últimas noites (quinta e sexta) foram só de farra, com este quem vos escreve dançando (bom, dançando, não – tentando) e zoando um bocado. As férias vão acabar em breve, e é sempre bom fazer novos amigos e fazer algo de diferente para quebrar a rotina.

A pior coisa de ser um brasileiro atípico (se é que é possível ser brasileiro atípico, já que quase tudo no mundo pode ser considerado também brasileiro) é que as expectativas às vezes são decepcionantes: uma menina pediu para eu mostrar meus passos (moves?), já que, como brasileiro, eu devo tê-los, não? Enfim, não sabia se inventava alguma coisa ou sumia. Fiz os dois… (ou foi ela que sumiu, não lembro… hehehe).

Esperam que saibamos samba (um outro lá me pediu para dançar samba). Só faltava pedir capoeira ou para dizer qual foi nossa escalação na copa de 78 para que a decepção fosse completa. Bom, pelo menos falo português e adoro praia, não?

Decidi: meu plano agora é me transformar em um brasileiro típico. Já baixei “Ai Se Eu Te Pego”, e acabei de comprar “Danza Kuduro”, hit do momento na Noruega. Sim, um diligente e informado leitor irá me informar que Danza Kuduro é um hit cantado por um latino, de um emigrante português (salvo engano) na França, baseado em rítmo angolano. Mas, por incrível que pareça, um dos discos de Kuduro, na iTunes Store, tem “brasileiro” como gênero. Vou capitalizar nisso… 🙂

Falando nisso, que coisa, não? A Angola tem uma música sua, original, que agora pasteuriza-se e é enlatada para consumo na Europa. Espero que isso seja uma coisa boa para aquele país, e não uma exploração cultural de gosto duvidoso.

Outra idéia para me transformar em brasileiro da gema: vou aprender a fazer feijoada. Já mandei ver um bolo esses dias (desses que nossas avós e mães fazem no Brasil, normais, sem frufru, mas que adoramos), e agora vou ver se faço feijoada. Ou acarajé, para ser ainda mais brasileiro: baiano. Mas sem axé, que tudo na vida tem limite.

Nos momentos de tédio, resolvi procurar música brasileira no Spotify, serviço de música na moda por aqui, e achei uma versão de Arrumação, de Elomar, cantada por Sérgio Reis. Caralho, não sei se é porque ando em fase de autoafirmação geográfica, mas fiquei arrepiado. Até MPB tenho ouvido… E, para lembrar da infância, escutei “Bananeira Mangará” e “Frevo de Mulher”.

Foi excelente ter ido às festas no bar da faculdade, coisa que normalmente não faço. Descobri que já conheço muita gente, descobri que há muita gente boa a conhecer, e descobri que, por mais que não tenha tanto a falar do meu país, é de lá que eu sou, e de lá sinto falta, talvez pela primeira vez.

Conheci uma grega. Sempre quis conhecer uma desde que Cam’s me deu um CD de Despina Vandi. A grega, tal como num filme, me disse que todas as palavras vêm do grego. ADOREI! 😀

Vou tirar o troço da Nike que posta no Facebook o quanto eu corro. Descobri que é um pouco demais. De repente, encontrava com noruegueses na faculdade que já sabiam como dizer “Eu corri XX km” EM PORTUGUÊS por causa das postagens automáticas. 😀

Bom, deixa eu voltar a ler o jornal, pulando, obviamente, o caderno “Cotidiano”, e fingir que a vida é uma beleza.

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