Os dados da revista Veja

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De longe, acompanhei nessa semana a repercussão de artigo do querido Prof. Paulo Pires, que, em seu texto sempre muito bom de se ler, protesta contra o protesto, ou melhor, contra a manifestação motivada pelos dados divulgados pela revista Veja, que situam Conquista como a pior cidade do Brasil no quesito educação. Para o Prof., pelo que entendi, “Vergonha Nacional” seria um termo pejorativo demais para uma cidade como Conquista.

Meu amigo Gutemberg Macedo, da OAB, pelo que li em outro artigo do Prof. Paulo Pires, teria dado um “puxão de orelha” no Prof. Paulo Pires, e este teria recebido críticas no sentido de que seu artigo acabaria por defender o prefeito.

Eu confesso que não sei como me posicionar. Não acho eu que tenho que me posicionar sobre tudo nessa vida, mas gosto de ter idéias claras.

Gosto da idéia do protesto. Eu prefiro protesto errado, mal direcionado, do que ausência de protesto. Políticos precisam ter medo. Autoridades são bajuladas a todo instante; é preciso sempre mostrar-lhes que devem um trabalho bem-feito à sociedade. Nesses termos, acho que o protesto foi bem-vindo.

Por outro lado, acho que essas coisas acabam sendo factóides. Sinceramente: alguém precisaria da revista Veja para descobrir que a educação pública sempre foi ruim em Conquista, na Bahia e no Brasil? Ou será a Veja agora a única fonte de visão para nós, cegos a respeito da nossa própria realidade?

Alguém acha que a educação de Conquista é de fato a pior do Brasil? Alguém acha que é a melhor? Isso importa?

O que importa, acho eu, é conhecer a realidade da educação e se envolver com ela. É saber quem são os professores que ensinam aos nossos alunos.

Penso que o uso de palavras de ordem como “Vergonha Nacional” deveria ser o que menos importa. Pra mim, não passa de slogan. Não passei a ter vergonha de Conquista por causa dos dados da revista Veja, nem meu orgulho diminuiu. Não foi a Veja quem me disse que a educação em Conquista é ruim – a educação no Brasil é ruim, e migalhas decimais em avaliações de ensino não vão exatamente me fazer crer que essa educação seja a pior, como quer a reportagem, nem que seja excelente, como os textos oficiais querem fazer crer.

Pra mim, esse é o problema: introduzir o elemento paixão na briga política é sempre tentador, mas não sei se constrói. Nem dizer que a cidade é vergonha nacional, nem dizer que ama Conquista – tudo isso, parafraseando um texto conhecido, contribui tanto para resolver o problema quanto “mascar chiclete contribui para resolver uma equação matemática”.

Agora, cabe a pergunta: o que os políticos da cidade – oposição e situação – querem fazer para resolver o problema?

Preocupa-me o fato de que o Brasil, neste ano, alcança a posição de 6ª maior economia do mundo. Parece piada – estamos entrando na porta das nações mais ricas pela porta dos fundos. Mas não há um esforço de desenvolvimento direcionado a melhorar a educação. Há um esforço para fazer as obras da copa em um tempo hábil, isso sim, dá pra se ver…

A realidade da educação é fruto do dilema do Brasil: falta de vontade de ruptura. Sim, ruptura. A mera injeção gradual de recursos, ao que parece, só contribui para manter a educação nos níveis ruins que se encontram. Professores mal remunerados produzirão péssimos resultados. Escolas mal conservadas, idem.

Eu acho urgente uma avaliação contínua dos professores públicos nas áreas em que atuam. Com a qualidade de muitos professores que temos, sem acesso a salário que lhes permitam uma vida digna, como exigir deles que mantenham-se reciclados, atualizados, empenhados e motivados? E, com professores assim, o que esperam? Que alunos tenham acesso a ensino de qualidade?

Sinceramente, não são números da revista Veja – esse lixo de jornalismo – que irão me fazer descobrir que nenhum professor que ganha salário mínimo – ou dois, ou três – poderá desempenhar bem sua profissão. Não são os números daquela revista de gente reacionária e vendida que irão me dizer que escolas projetadas sem levar em conta a utilidade dos prédios para a tarefa de educar estarão fadadas a se transformar em depósitos de alunos.

Um dado interessante, que talvez ajude a entender um pouco a coisa toda: o Brasil é um país com baixo grau de individualismo, de acordo com o site Geert Hofsteder Cultural Dimensions. Esse site faz uma análise de dimensões culturais. No Brasil, para o bem e para o mal, nossa sociedade não é muito individualista. Nós somos um país extremamente generoso. Por outro lado, esperamos que a coletividade nos dê o que precisamos, esquecendo-nos que temos que construir essa coletividade. Eis os gráficos – Brasil e Noruega:

 

Ou seja: não parece que cabe a nós, cidadãos, resolver o problema da educação. Não conhecemos as salas de aula onde nossos filhos estudam. Alguém já foi ajudar a limpar a escola? Alguém já coordenou algum mutirão de reforma? Alguém já organizou doações de material para a escola de sua comunidade?

Não – essas funções são sempre de outras pessoas. A culpa é do Prefeito, a culpa é do dono da escola particular, a culpa é dos professores… Enquanto não começarmos a nos envolver com os serviços públicos, ficaremos sempre sujeitos à realidade que não conhecemos – a dos baixos orçamentos públicos, que, segundo os políticos, impedem avanços significativos. Nunca conheceremos a real dimensão dos numeros – quer dos de Veja, quer das cifras orçamentárias. Com isso, vamos conduzidos como gado por slogans como “Vergonha Nacional” ou “Ame Conquista”. O problema, diremos, não é nosso – é do prefeito.

Não quero eximir a Administração Pública quanto a isso – acho que política, infelizmente, não segue a ciência da administração (ou Teoria da Administração). Segue uma lógica de poder que nem sempre coincide com as melhores escolhas. Mas acho que poderíamos ter o melhor prefeito do mundo, e a situação não seria nunca a ideal, pois o ideal sempre passará por um governo onde a sociedade, de fato, conheça a administração e com ela se confunda.

Voltando ao protesto – o ruim dessas coisas é que tudo acaba se politizando (no sentido ruim da palavra) – quem protesta pela qualidade da educação acaba sendo de oposição, e quem reclama do protesto acaba sendo de situação. Mas a educação, mesmo, com ela parece que ninguém se preocupa. Tudo, no fundo, acaba sendo reduzido à responsabilidade do prefeito (como se a comunidade nada tenha a ver com isso), ou ao desamor à cidade, ou à confiabilidade dos dados. Pergunto eu, que gosto de perguntar coisas: se os dados dissessem que estamos entre as 10 melhores cidades em educação pública, alguém aí estaria satisfeito, ou amaria Conquista por causa disso?

E o assunto voltará a dormir até que algum outro dado estatístico venha a dar um novo “barato” a quem precisa dele para fazer a sua “viagem”…

Autor: oculos

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