O bullying

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Não há nada de novo debaixo do Sol.

Em conversa animada com amigos, falamos brincando sobre o bullying, e, desde então, apesar de nossa conversa ter sido séria, veio a vontade de escrever sobre o assunto.

É impressionante como algumas coisas nunca mudam. Hoje vivemos na era do politicamente correto e da tecnologia difundida e presente na vida de todos. A modernidade dessas condutas levaria, supostamente, a uma elevação do espírito humano a não reproduzir comportamentos agressivos de outras gerações.

Coisas que hoje são comportamentos corriqueiros, como o uso de computador em demasia, antes eram motivo para chacota o estigmatização. A religião protestante, antes meio que “de gueto”, hoje é meio que “mainstream”.

Enfim, fui vítima de bullying, embora, à época, não tenha me dado conta disso. Também não me parece, pelo menos em uma análise rápida, que o comportamento discriminatório tenha sido grave como nos casos mais sérios, em que implicavam em agressões físicas e mesmo na resistência das crianças em ir pra escola. Porém, nem por isso deixou de moldar o que sou hoje e o quanto não tolero discriminação.

O bullying do qual fui vítima era baseado nos olhos típicos de quem tem glaucoma, na baixa estatura, na paixão por tecnologia, no fato de tirar boas notas (ignorando o fato de que eu não era lá de muito estudo), no fato de ter à época abraçado a fé evangélica (ainda que hoje bastante decepcionado com ela), no fato de ser desajeitado com as meninas, de não gostar muito das festas e das danças. Por não ter dinheiro para usar sempre roupas de marca.

Pode parecer que tudo isso seja normal, mas talvez todo adolescente queira se sentir incluído no meio em que está inserido. Talvez a prova maior disso seja o narcisismo demonstrado de forma escancarada na quantidade de fotos sorridentes do Orkut & Cia, onde todo mundo (inclusive este escriba) parece feliz, contente – superstar.

Naquela época, talvez como hoje, ao falar de forma mais fina, o adolescente era logo taxado de homossexual. A espontaneidade do gesticular, idem. Éramos treinados para sermos machos. Lembro-me do caso do pai de aluno que parou o carro e mandou que seus filhos batessem em um menino, à época com seus 13, 14 anos, porque este havia feito um comentário engraçado (mas nada ofensivo – nem mesmo grosseiro) sobre sua filha. O comportamento incentivado nunca foi o do diálogo, o da convivência respeitosa entre as crianças.

Imagino que o bullying que sofri seja mínimo comparado àquele sofrido por homossexuais, negros, portadores de necessidades especiais, etc. Talvez as sequelas sejam menores, mas existem. De qualquer forma, não me prejudicaram tanto quanto poderiam, já que, pra bem ou pra mal, nunca achei razoável que alguém pudesse ser punido por suas características naturais ou vítima de discriminação por suas opções, gostos, idéias ou que tais. E hoje, fico feliz por não discriminar, ao menos conscientemente, amigos e amigas “diferentes” (expressão por si só já discriminatória), ainda que pressionado pela exposição contínua a outros que o fazem e que apontam o dedo a nós, exigindo igual comportamento.

Sei que, por causa do bullying do passado, que há os que evitam as boas amizades por pressão de grupos. Há os que fazem mil plásticas para corrigirem alguma imperfeição (como se perfeição existisse) apenas por pressão social. Há os que evitam abrir a boca em público por conta da sua voz. Há os que se fecham ou passam a andar em guetos. Há os que procuram mimetizar o tal “comportamento ideal”, anulando a própria individualidade.

E, infelizmente, nada mudou, a não ser a percepção que o problema existe. E o comportamento de agressão e discriminação continua a ser reproduzido de pai pra filho. Nós, adultos, não costumamos dar bons exemplos de convivência. São as pequenas gozações (você anda demais com fulano – será que é igual a ele? – você comprou um carro pequeno – combina com seu tamanho!), sem nenhuma intenção ofensiva, mas que reproduzem a noção preconceituosa do certo e do errado quanto a critérios de beleza, raça, gênero, etc. Esse tipo de comportamento é abominável quando parte de estranhos, mas eu, pelo menos, ignoro estranhos. Porém, às vezes nós mesmos repetimos as mesmas agressões, sob pretensa forma de brincadeira, que, praticadas por nossos filhos, condenaríamos se tivéssemos bom senso. O amigo que fala fino passa a ser gay (“not that there’s anything wrong about it”, pra quem é fã de Seinfeld), o que de baixa estatura é o “baixinho”, o mais pesado é o “barrigudo”, “gordo”, o alopético é o… enfim – vocês percebem como os pequenos estigmas são sorrateiros.

Nem sempre percebemos que, pra quem levou uma vida a ser molestado psicologicamente com estigmas, não é fácil continuar a sê-lo na vida adulta, ainda que sob forma de inofensivas brincadeiras. Acho, assim, que é imperioso, não por adesão a uma convivência politicamente correta e pasteurizada, mas sim por uma questão de respeito à diversidade, que passemos a pensar em uma nova forma de humor, em uma nova forma de tratar as pessoas, em um jeito aberto, sem as amarras pseudo-culturais que nos impelem a uma forma tão hostil ao semelhante, ainda que sob o pretexto de uma simples brincadeira.

Ao escrever sobre o assunto, fiquei pensando se, de fato, deveria fazê-lo. Alguns amigos dizem que as pessoas não deveriam falar tanto de si na internet, questões de privacidade, etc. Mas eu penso que devemos, sim, falar de tudo o que nos torna mais humanos. A ditadura das fotos sorridentes do Orkut cria hoje uma falsa sensação de que só nossos êxitos e qualidades devem ser mostrados, como se devêssemos esconder debaixo do tapete a miséria que, às vezes, representa nossa condição humana de seres imperfeitos e desajeitados nesse mundo tão estranho. E eu, pelo menos, não quero me render a ditadura alguma, porque eu sei que nossas misérias nos unem mais do que nossos sorrisos falsos (embora alguns desses sorrisos, de tão genuínos, talvez nos unam ainda mais, não sei…).

Autor: oculos

the guy who writes here... :D

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