O perfeito cretino inimigo dos direitos humanos

| 2 Comentários

Estive refletindo sobre a barbárie praticada pela polícia em Vitória da Conquista nos últimos dias. Para quem não é daqui, relato a questão:

Mataram um policial. Policiais, então, com as armas compradas com o dinheiro dos impostos que eu pago, com as viaturas compradas com os impostos que também pago, pagos eles mesmos com salários advindos dos tais impostos, invadiram casas e executaram membros da família do suposto assassino. É como se não houvesse lei, e como se voltássemos à época da vingança privada. Olho por olho, dente por dente. Não precisamos mais de judiciário, de advogados, de nada. Eles viraram a lei. Como eu já disse antes, a polícia virou uma galgue. O Estado não tem mais controle sobre os marginais que praticaram essa barbárie.

Mas acho que precisamos dizer mais sobre o tema. Por coincidência, dei carona a um policial militar no fim de semana, que, sobre a morte do policial, me disse o seguinte: “É uma pena, porque isso traz mais mortes”. Isso me fez relembrar toda cantilena que os marginais vestidos com fardas estatais começam a balbuciar toda vez que se ataca a conduta violenta que eles praticam.

O perfeito cretino que fala mal dos que defendem os direitos humanos normalmente faz algumas perguntas cínicas. Vamos a elas:

P: Você não mataria se isso tivesse acontecido com você/com seu filho(a)/com sua mãe/seu pai?

R: Sim. Mataria. Eu faria muitas coisas se tudo fosse como manda a minha vontade. Ocorre que o Estado tem leis, e a humanidade optou por não punir o criminoso com a sua conduta. Ou seja: desde há muito não se matam pessoas assassinas. Aliás, até se matam, mas sempre através do devido processo legal.
Assim como eu gostaria de ter muito dinheiro, de ter uma casa na praia, gostaria de punir quem me fez algum mal da mesma forma que a pessoa me prejudicou. Mas, felizmente, em um Estado Democrático de Direito, eu não escolho as penas – o Estado é quem o faz. E as penas são aplicadas através de um julgamento, que serve tanto para que se tenha razoável certeza da culpabilidade, como para provar que todos, em tese, são iguais perante a lei, e são julgados da mesma forma.

P: Você não entende nossas condições de trabalho. Você enfrentaria bandido alisando?

R: É a pergunta mais imbecil que existe. Ninguém está pedindo que policial algum se sacrifique para que um bandido escape. Mas não se pode conceber que a polícia seja composta de justiceiros, que matem para cumprir a própria agenda, para proteger os interesses corporativos. A polícia deve obediência ao Estado, deve agir em nome dele. Como eu disse, o Estado não paga a polícia para julgar – paga para que cumpram a lei. Se o policial é incapaz de fazê-lo, abandone a farda e vá vender picolé. O que não pode é fazer o que bem entende. Da mesma forma que eu, como advogado, não leso os meus clientes, não quero que o dinheiro que pago de impostos seja usado para financiar assassinatos.

P: Vocês defendem direitos humanos para bandidos. E para nós?

R: Quantas vezes o policial é vítima de abusos? Que eu saiba, não é tão comum assim. O que eu sei é que quando um policial mata alguém injustamente, como no caso de uma bala perdida, pedem desculpas e fica por isso mesmo. Já quando um policial é morto, como foi o caso relatado acima, acha-se a polícia na posição de fazer execuções ao seu próprio alvitre. Pergunto eu: a vida de um policial vale mais que a minha, ou do que a de uma vítima de bala perdida? Por que quando morre um cidadão de bem a polícia não sai por aí matando? A resposta é simples: comportam-se como uma gangue: o problema é que mataram um membro da gangue (e aqui falo de forma geral, e não especificamente do policial morto, a quem não conhecia e quem, decididamente, não merecia morrer dessa forma, assim como não deveriam morrer os menores “desaparecidos” após esse trágico assassinato).

Em suma: a polícia de Vitória da Conquista está acéfala. Não tem comando. Não há punição. Há endosso a essa conduta criminosa. Assim como houve endosso em relação aos policiais que prenderam advogados de forma arbitrária. Assim como houve endosso quando agrediram um cobrador de ônibus.
O comandante deveria, urgentemente, pedir a própria exoneração, já que incapaz de obter disciplina de um bando de delinqüentes que, com arma na mão, acha que está acima da lei à qual deveriam cumprir e fazer cumprir.

Autor: oculos

the guy who writes here... :D

FireStats icon Produzido pelo FireStats