Kirkenes

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Por alguma razão, se é que há razão nessas coisas, e, digamos que exista – poderá ser o frio que faz hoje, por exemplo – peguei-me a pensar em Kirkenes.

Kirkenes é uma pequena cidade do Município de Sør-Varanger, na Noruega, onde morei entre 1999 e 2000. O que havia ouvido sobre esse lugar é que lá era frio. Não um frio qualquer, mas sim um dos lugares mais frios da Noruega. Quando lá cheguei, puxei conversa com o motorista do ônibus que ligava o aeroporto à cidade, dizendo em meu norueguês macarrônico: “Nossa, aqui faz frio!”, o que o simpático senhor respondeu, após rir um bocado: “Você ainda não viu nada”.

No caminho para o centro da cidade, placas de trânsito em Norueguês, russo, com seu alfabeto cirílico, e inglês. Neve por todos os lados. Não, eu ainda não tinha visto nada.

Nos primeiros dias, a descoberta do mundinho que me cercava: as pessoas não necessariamente gostam de falar com estranhos, algo ao qual os brasileiros como eu não estão necessariamente acostumados. No entanto, comecei a gostar daquele lugar, mesmo com apenas dois canais na televisão, o que não ajudava a fazer o tempo passar naquela paragem onde só fui ver o sol depois de 2 meses – tínhamos 2 horas de claridade e o resto era noite.

Lembro-me do supermercado, onde o preço do refrigerante não era o mesmo que se pagava no caixa – lá, cobravam a garrafa em separado, o que já me fez passar um ou dois vexames. Recordo-me dos escorregões no gelo das ruas, de distribuir jornais, de carregar a árvore de natal, de ir à caixinha do correio pegar correspondência (que quase sempre eram anúncios inúteis, exceto quando recebi os CD’s do Linux e quase detono o computador da ex), e de como era bom pegar aquele ônibus para ir aprender o idioma.

Talvez tenha sido Kirkenes que tenha me tornado um homem adulto, coisa que, até então, a faculdade não havia logrado fazer. Lá cozinhei sozinho, e tive que aprender a tirar neve da frente de casa. Lá procurei emprego, lá fiz trabalho voluntário de verdade, quase sempre tirando neve da casa de velhinhos que nos davam chocolate. Naquela cidade longe do mundo fui feliz, mesmo sabendo que ali não teria muito o que fazer.

Lembro-me das idas a Näätämö, lugarejo finlandês próximo à fronteira, e de ter comprado a pior sidra da minha vida, e a melhor costelinha de porco. Penso na ida à igreja (Grense Jakobselv?) na páscoa, e ter andado de snow-scooter. De visitar a mãe de amiga turca no hospital, e na saudade que tinha dos amigos refugiados, todos temerosos pelo futuro. Não mantivemos contato, mas sei que a maioria foi deportada.

Sábado era sempre dia de taco e de chips de batata frita com rømme (sour cream), com clones da coca-cola (Husets cola). Gosto de pensar às vezes na cantada língua norueguesa, com seus sons estranhos aos quais me habituei. Lembro-me dos minutos de espera pelo ônibus na biblioteca, conversando com outros forasteiros naquele fim de mundo, alguns fugindo da guerra, outros buscando xamãs do povo Sami (lapões), e outros apenas matando o tempo.

Há tanto mais na cabeça, tantos personagens, tantas ruas andadas, tantos momentos impregnados de sabores, risadas, idiomas, cheiros e sons, que gostaria de narrá-los todos, medo que a memória se perca.

Não sei se minha Kirkenes ainda existe. Não sei sequer se já foi minha. Mas sei que um dia terei que conferí-la de perto, ver se foi apenas uma peça pregada pela minha cabeça em seus devaneios tortos ou se de fato vivi aquilo, cursei aquela faculdade da vida e trouxe comigo o diploma, não se de que. Mas sei que o garoto que lá chegou cheio de esperanças voltou homem cheio de dúvidas, porém sempre com saudade, essa maldição ou benção, já não sei,

Autor: oculos

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