Olivetti Lettera

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Lendo Günther Grass, talvez meu escritor preferido, no livro “Nas Peles da Cebola”, algo me chamou a atenção: ele, confessando que ainda usa máquinas de datilografar para escrever seus textos, mais especificamente aquelas do título deste post, narra quanta cumplicidade tal máquina teve para com ele.

Eu não sou nenhum Günther Grass, mas acho que sei de qual cumplicidade ele está falando – cumplicidade essa que, em maior ou menor grau, tenho com meu computador. E pergunto-me o quanto isso  me aliena do resto do mundo. Meu computador ouve, calado, sem travar, minhas lamúrias, cantilenas diárias sobre o que eu gostaria de ser, sobre como o mundo poderia ser mais fácil, essas coisas da juventude que insistem em permanecer me incomodando. Ele, mesmo sendo reiniciado uma ou duas vezes por semana, mas jamais desligado, não esquece: guarda todas as minhas provocações. Nunca desiste de me escutar, mas, assim como o escritor alemão, também não o almadiçôo quando ele, temperamental, precisa ser reiniciado, alerta para a pouca bateria ou disco rígido quase repleto de inutilidades. 

Esta máquina, que já me apresentou a tanta gente, gente que magoei, gente que me magoou, pessoas daqui e de longe, me fez recluso e, paradoxalmente, sociável a seu próprio modo – me mostrou rostos e perfis duvidosos nas redes de relacionamento e me fez desistir completamente de refinar meu gosto musical – ao contrário, me fez gostar de música chula romena…

E em um final de semana como esse, ensolarado, mas com ar preto-e-branco, quando tomar um sorvete parece algo distante, ele me ouve, calado como sempre, com a bronquite do seu ventilador a reclamar do calor, como se dissesse que me entende, quando nem eu mesmo consigo fazê-lo…

Autor: oculos

the guy that owns this thing... :D

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