Turquia

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Terminei de ler o livro “Neve”, do escritor turco Orhan Pamuk. O final me deixou muito chateado – não poderia ter final feliz? Que que custa um final feliz? Acho eu que a literatura só deveria ter finais felizes, que dos tristes já estamos fartos…Engraçado: eu sou tão cegueta que, ao comprar o livro, achei que o cabelo da mulher da capa era verde. Era o chador dela…E parece que a Turquia anda a me perseguir: uma amiga me deu uma caixa de chocolates turcos, da marca Şölen.  Deliciosos, lembram o Ferrero Rocher. 

Lembro-me de uma colega turca quando do meu “exílio” no exterior. Essa colega, curda, refugiada, excelente aluna no idioma do país que a (nos) acolheu, lá não teve muita chance. Nunca a mandaram estudar com as jovens de sua idade, e viveu num limbo. Sua mãe teve problemas de saúde. Fui visitá-las no hospital, quando essa amiga confessou-me: “Odeio a Noruega”. A gota d’água foi terem aberto a mãe do lado errado para operá-la, acho eu, mas posso estar enganado. De qualquer forma, parece que teve erro médico. Bom, ao voltar pra cá, recebi um postal de natal de Dilek, mesmo sendo ela muçulmana (ao que eu saiba, muçulmanos não comemoram o natal, mas, ignorante que eu sou, posso estar novamente enganado). Nunca me esqueço do gesto. Quis escrever-lhe uma carta, meses depois, mas soube que foram devolvidas à Turquia. 

Lembro-me do amor de Dilek por seu país, apesar da perseguição ao seu próprio povo. Lembro-me que nós, estrangeiros, éramos, para Dilek e para sua família, o que mais se aproximava de amigos. A sociedade nórdica, tão justa, tão preocupada com as diferenças culturais, não se mistura na prática: segrega, afasta, delimita. 

O drama dos refugiados machuca. Quando se fala em imigrantes, a imagem é daqueles que vão trabalhar para ganhar a vida. Mas naquele nosso cantinho no Ártico, esses não existiam tanto assim. Quem é, afinal de contas, que iria para o Ártico ganhar a vida? Não, todos estavam ali fugindo e enfrentando o purgatório: afinal, dado o asilo, não era dado ao imigrante escolher onde ficar. Eram bósnios, argelinos, albano-kosovares, iraquianos, somalis, etíopes, russos, peruanos e turcos, Todos querendo paz, uma vida melhor, sustentados pelo Estado que não os integrava. A solidão era a grande companhia desses refugiados. Um argelino, na falta de companhia melhor, me convidou para almoçar no albergue de refugiados. Em suas humildes condições, preparou-me um banquete. Culpavam a Noruega, os judeus (sempre eles são escolhidos como culpados), seus próprios governantes, enfim, culpavam a todos porque ninguém parecia ligar para o fato de que tinham sonhos, e queriam ter direito a uma vida livre. Não consolava esses imigrantes o fato de que o paós que os acolhia já não tinha tantos meios assim para receber tantos imigrantes, ou pelo menos era isso que a publicidade oficial dizia. Aliás, quando as coisas vão mal, não é aos imigrantes que passa a caber a culpa?

Onde quer que eu veja algo que evoque a Turquia, irei lembrar de Dilek, inteligente, simpática, de um coração imenso e com uma vontade de entender a razão pela qual esse mundo é tão injusto…

Autor: oculos

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