Carta Aberta ao Presidente Lula sobre o padrão de TV Digital

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Carta Aberta ao Presidente Lula

Caro Presidente,

Devo começar dizendo que sou seu fã quase incondicional. Cresci no meio do PT, subindo nos palanques desse partido desde os 6 anos de idade. Até hoje mantenho relações com o partido, muito embora não seja mais membro (quer dizer, é possível até que seja, é que não fui às reuniões, portanto já devo ter sido desligado há anos).

Sua história é invejável, Presidente. Combateu os poderosos industriais, lutou contra a ditadura, não desistiu e hoje é o Presidente da República.

Não me arrependo de ter sempre votado no senhor. Acho que vivem criando factóides contra o seu governo. Sim, não sou besta de achar que não houve corrupção, irregularidade, pilantragem mesmo. Mas sei que o nosso sistema leva a tais condutas (o que não as justificam). Um sistema com um Congresso que engessa o Executivo por meras razões fisiológicas não pode exigir um governo completamente limpo, e o força a fazer concessões condenáveis.

A mesma elite que sempre acobertou a corrupção nos demais governos apregoa agora que o seu governo é mais corrupto do que os outros. O que me parece é que as instituições funcionam mais no seu governo, e funcionavam menos nos outros. É como se diz: “Aos amigos, tudo – aos inimigos, os rigores da lei.”. Fico aqui me perguntando se seriam tão eficientes fosse outro o mandatário. E me recuso a fazer coro a deputados tão medíocres, que usam os microfones de CPI’s para expor seus gestos histriônicos, como num palco de ópera-bufa, sem a menor intenção de apurar fatos, mas para promover espetáculos pessoais.

Dito isso, é óbvio que não aprovo mensalão algum. Acho que essa praga manchou o “nosso” partido. As condutas de José Dirceu & Cia. desonraram a história desses. Mas sei que o seu projeto de governo é coerente.

O Brasil pode não ser um país justo hoje. Mas é estável. As mudanças não vêm com a velocidade que gostaria, mas estão vindo. Gostaria de ver mais ação, Presidente. Não acredito que o que foi feito até agora tenha sido muito, acho que poderia ter sido feito muito mais pelo povo. Mas, para ser justo e franco, acho que foi feito mais do que algum outro faria.

Senhor Presidente, feito essa introdução, devo lhe dizer que é provável que não vote no senhor. É que uma atitude sua me parece ser um divisor de águas: capitulará Vossa Excelência em favor da Rede Globo, decidindo pelo padrão japonês de TV Digital?

Olha, me custa a crer nisso. O Brasil sempre tomou decisões que nos isolaram do resto do mundo sob os mais variados pretextos. Escolheu-se o PAL-M como padrão de TV a cores para estimular nossa indústria. Criou-se, com isso, mercados informais e custos maiores para que os gravadores de video-cassete fossem disseminados, além de nosso completo isolamento do resto do mundo nesse sentido.

Lembra da reserva de informática, que nos faria uma nação avançada tecnologicamente? Pois é. Sabe Vossa Excelência do nosso atraso no desenvolvimento de hardware. E depois reclamam do mercado informal de computadores.

Tudo aqui é único: desde o plug da tomada telefônica até o padrão de cores da TV. E nossa indústria foi incapaz de se igualar àquela dos países desenvolvidos.

O Brasil, até hoje, privilegiou os grandes grupos industriais em detrimento dos consumidores, da população. O argumento fazia sentido: cresceria o bolo, que seria repartido. Eles se desenvolveriam, todos nós seríamos beneficiados. Mas sabe o que aconteceu, Presidente? Nós, que somos nação pobre, pagamos alíquotas de importação absurdas por produtos tecnológicos de ponta, já que nossa indústria não produz aqui tudo o que queremos comprar. O senhor conhece o iPod, por exemplo? Não é fabricado aqui. E custa 2x mais comprá-lo aqui do que no resto do mundo.

Excelência, os impostos que pagamos para consumir são imensos. E, pior: numa sociedade informatizada, consumir, infelizmente, não significa apenas preencher um vazio existencial que nos aflige. Significa, por pior e mais cruel que isso seja, estar atualizado, integrado e apto a produzir em um mundo cada vez mais exigente. A verdadeira luta de classes, e o diferencial entre elas, é o consumo.

Nossa população ganha pouco e paga caro pelos bens de consumo. E para que? Para privilegiar uma indústria incompetente, e um interesse nacional desfocado.

E aí chego ao ponto crucial dessa minha carta, que já se alongou demais: o senhor pretende escolher o padrão japonês de TV digital. Padrão existente apenas no Japão. Padrão que encarecerá os produtos nele baseados, por falta de escala. O padrão europeu (e, nesse sentido, até mesmo o padrão “azarão” americano) foi adotado em outros países, com sucesso. Há uma ampla, enorme gama de produtos baseados nesses outros dois padrões. Sabe, presidente, hoje poderia eu assistir TV digital na tela do meu computador, tranquilamente, caso o padrão adotado fosse outro que não o japonês. Os fabricantes já desenvolveram inúmeros produtos na Europa para TV Digital.

Do ponto de vista do consumo, da compatibilidade, não haveria dúvidas quanto à escolha do padrão. Mas a Rede Globo quer o padrão japonês unicamente para manter a sua hegemonia. E joga pesado: seu Ministro das Comunicações, Presidente, deveria ao menos se declarar suspeito, já que antigo funcionário daquela empresa. Ele defende abertamente a TV dos seus antigos patrões.

Estamos em ano eleitoral, Presidente. O senhor lutou contra todos durante sua vida toda. E venceu. Venceu a Ditadura. Venceu a elite. Venceu a Globo. Será que irá, nessa altura da vida, fazer uma escolha eleitoreira? Irá nos conduzir, novamente, ao isolamento global?

Os países vizinhos já estão se afastando. Já estão dando sinais de que não acompanharão o Brasil caso nossa escolha seja o padrão Japonês. Entendo que a imigração de muitos daquele país ao nosso nos torna países irmãos. Mas é pra tanto?

Li em um site, Sr. Presidente, e é bem verdade que a informação é suspeita, já que foi no site dos fabricantes ligados ao padrão europeu de TV Digital, que o Brasil já adota aquele padrão para cabo e satélite. Será que sairemos da nossa trilha, evitaremos a convergência, e adotaremos um outro padrão?

Sr. Presidente, várias coisas podem ser ditas sobre sua trajetória. Uma delas é que não foi eleito por algumas vezes por causa da Rede Globo. Outra coisa é que foi eleito a despeito dela. Não acrescente a seu currículo uma eleição ganha por causa da Rede Globo. Sua biografia estaria irremediavelmente manchada.

Não conte com meu voto caso adote a tal tecnologia japonesa. Sei que parece egoísta vincular um voto a uma escolha de algo que parece ser tão superficial. Mas o que conta aqui é a atitude, a fibra. É nesses momentos que se conhece o governante que tem.

Reflita, sr. Presidente. Consulte o mercado, consulte os técnicos. E mais: consulte a sociedade. E até escolha o japonês, se for por convicção. Mas não faça a escolha por chantagem.

Um abraço, Sr. Presidente.

Autor: oculos

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