10/9/2017
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A esquerda e a terra prometida

Eu também fiquei chocado com as tais malas de dinheiro no apartamento de Geddel. Quem não ficou? Quem não ficaria? Não era inesperado, não foi exatamente uma surpresa, ninguém nunca achou que Geddel foi santo. Mas visualizar aquilo choca.

Mas é preciso um pouco de cabeça fria. Geddel não tornou-se corrupto agora, mas, principalmente, não é agora que todo mundo descobriu que o rapaz é do mal. Digo isso porque apontam que ele pertenceu tanto ao governo Dilma quanto ao governo Temer. O PT tinha uma aliança com o PMDB, com partidos mais retrógrados e acostumados com um ambiente corrupto. Isso é fato. Não entendo exatamente a surpresa. Essas alianças do PT viabilizaram os sucessivos governos do partido. Imaginar que o PT seria um freio à corrupção dos seus aliados pode até fazer sentido, e, de repente, vai ver era isso que deveriam ter feito, mas não deixa de ser um tanto ingênuo.

As tais alianças tiveram a vantagem de sustentar um governo com programa mais popular que os anteriores. Isso é fato, e ninguém discute sério discute que os governos petistas não foram mais populares ou com programas mais minimamente destinados às classes menos favorecidas. Mas será que isso basta para justificá-las? Hoje, começo a achar que não:

Os problemas dessas alianças são, ao meu ver, dois:

– Contaminaram o partido (vá lá, ou apenas deram espaço para os corruptos em potencial que já estavam lá);

– Macularam a primeira experiência brasileira de um governo legitimamente de esquerda após a ditadura militar.

Esse descrédito da esquerda e a radicalização do eleitor brasileiro são uma herança difícil. Eu não diria que a culpa é exatamente da própria esquerda, já que esse julgamento é feito hoje, e não àquela época – a não ser que alguém demonstre que, historicamente, alianças entre esquerda e direita sempre terminam mal para a esquerda.

Uma das pessoas mais inteligentes que conheço, e que, não por coincidência, é uma das mais honradas também, sempre foi contra isso tudo. Saiu do partido mais de uma década antes dessas alianças, por achar que política se faz acima de tudo com princípios. Pois hoje vejo que essa pessoa tem absoluta razão.

Não acho que o PT seja exatamente culpado de tudo isso aí. Mas é responsável porque, ao fazer uma aliança, afiançou gente perigosa. Eu sei que amigos meus hão de discordar, porque na luta política a opção é sempre a de eleger o menos pior, ou o programa mais progressista. Isso é indiscutível. Ninguém vota no PT pelos lindos olhos do Lula. Vota-se no PT porque o resto, politicamente, é um desastre. Tanto assim que os críticos raivosos do PT dificilmente direcionam sua agressividade às alianças que seus candidatos fizeram – isso quando explicitam suas escolhas partidárias, o que hoje em dia, convenientemente, não fazem. Porém, não se pode fazer um julgamento político baseado nessas gangues raivosas da internet ou na incoerência de quem milita na direita. Ainda assim, há limites. A esquerda precisa entender que, mais que alimentar quem tem fome, sua missão é criar uma sociedade auto-sustentável, plural, ética e inteligente, além de alimentada. Basear sua política em melhoras incrementais na qualidade de vita em troca da entrega de feudos para a direita saiu caro.

O Brasil, ao sair da ditadura, tinha uma população ansiosa pela liberdade, pela democracia e pelo avanço da cidadania. Hoje, o debacle do PT criou uma população arisca à tal democracia, à pluralidade e aos valores que a esquerda defendia e que hoje estão sendo reduzidos a pó.

Assim, o PT precisa se auto-impor um purgatório como aquele imposto aos hebreus ao saírem do Egito: a geração corrupta não pode vir a conhecer a terra prometida. Em razão disso, a candidatura de Lula é um desserviço ao país.

Lula merece o benefício da dúvida. Merece um processo legal não baseado no espetáculo midiático ou na obsessão da condenação baseada em delações. Lula, só, não: todo mundo. Aquela sentença do Sérgio Moro é uma das peças mais estúpidas que já li, onde a persona do juiz está misturada na fundamentação técnica. Mas, politicamente, apesar de ser um político capaz de pacificar o país, e apesar do ódio em torno de si, Lula precisa entender que os projetos progressistas hoje precisam vir de uma esquerda tão acima de críticas morais quanto àquela que existia em 2002.

Ou o PT reconquista a autoridade moral que tinha, ou pode causar ainda mais dano caso não admita que, como jogou, não pode mais jogar.

14/5/2017
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O bom filho leva a casa consigo…

(Aos dois ou três que ainda aparecem por aqui, obrigado pelo estímulo e por me lembrar que tenho um blog! (sim, S., você sabe que falo de você… :*))

E aqui estou eu em minha cidade natal novamente. Já se passaram quase um ano e meio desde que aqui estive pela última vez, e sempre ouço a mesma pergunta, pergunta que não me cansa porque nela penso sempre; quer dizer, não na pergunta em si, mas em algumas reflexões paralelas a ela. A pergunta é: “você tem vontade de voltar ao Brasil?”, ou “você vai voltar ao Brasil?”, ou ainda outra variante, aquela que diz “você sente falta do Brasil?”.

Eu não costumo depreciar o Brasil porque no fundo sempre tive certa reserva, para não dizer outra coisa, em relação àquele emigrante que desdenha do seu país e enaltece (ou desfaz) do país que o acolheu. Portanto, nunca achei que a resposta para essas perguntas fosse simples. Minha própria noção do que é o Brasil é complicada, e já volto a esse tópico.

Devo dizer, entretanto, que essa polarização política do Brasil, juntamente com a presente crise, tornam fácil não querer voltar, pelo menos não nesse momento. Não que me passasse antes, mas principalmente por outros motivos que não o país em si, mas sim em razão dos caminhos que escolhi para mim. Mas hoje, com o país polarizado, onde amigos brigam em razão de preferências políticas, onde não há diálogo porque parece que as nuances das questões parecem no meio do barulho que fazem, não me sinto exatamente tentado.

Nesses tempos difíceis, faltando com os amigos pelo telefone, quando me desencorajavam pelo telefone a sequer cogitar voltar, eu tentava enumerar as vantagens de morar no Brasil. O problema é que, para tudo que eu dizia, vinha um argumento contrário. Não, não se trata das amizades (outra pergunta recorrente é se as amizades daqui são mais fortes, quentes, do que as de lá – eu diria que são diferentes, mas não mais fortes ou mais fracas). Não, também não é o tal calor humano, ou o clima, ou a comida. Até que eu confessei algo que descobri recentemente: eu não rio no estrangeiro como rio aqui. Um amigo retrucou-me, e disse que é porque, no Brasil, ri-se dos outros. É verdade, talvez, mas ainda assim, aqui o riso me é fácil. Vai ver é porque aqui eu entendo a piada logo…

Eu não sei definir o que é o Brasil para mim, e porque eu deveria sentir falta dele, tirando o óbvio família-amigos-clima. E fiquei a pensar sobre o que ainda me liga a esse país que tanto desgosto nos dá, que nos maltrata, que nos, perdão pela força da palavra, mas que nos envergonha. Algum bairrista poderia dizer que temos as melhores comidas, as melhores praias, a natureza mais linda, etc. Eu poderia discordar, mas mesmo que fosse verdade, descobri a razão pela qual sinto falta daqui, a razão pela qual sempre amarei esse lugar, a razão pela qual sempre me voltarei para cá, tal como se fosse uma Meca: é que aquilo que eu sou foi forjado aqui.

Vitória da Conquista à noite Crédito: Fabrício Filmes

Quem eu sou foi formado em uma cidade poeirenta, fria à noite, escaldante durante o dia. Aquilo em que me tornei alimentava-se de feijão e farinha, e cuspia caroço de jaca. Cresci melado de manga e melancia, farto de mamão e banana cozida. Sou feito do Alto Maron, bairro quase enladeirado com ruas às vezes esburacadas, onde sempre foi diversão ver enxurradas que transformavam ruas esburacadas em rios. Sou tatuado pelas quedas de bicicleta, pelas idas ao centro para o suco de acerola que congela o cérebro, pela primeira lata de cerveja importada, pelo pastel engordurado da lanchonete Saruê. Sigo enfeitiçado por suas iguarias, algumas absolutamente sem-graça mas incontestavelmente irresistíveis – não consigo definir o biscoito avoador de outra forma. Encanto-me, hoje, com aquilo que não me era antes tão especial, por comum demais: sucos de caju, acarajés, chimangos e catados de sirí. Sou marcado pelos amores que aqui tive, pelos amigos que aqui tenho, pela família que sempre terei. Ainda admiro-me do sorriso fácil da minha gente, dos abraços apertados e das resenhas batidas. Sim, aqui se batem resenhas, bate-se uma “posta” ou se “queta de prosa”. É tarde demais. Não adianta preferir viver longe, gostar mais de onde eu hoje resido, porque isto que sou é feito de outra coisa, uma coisa que não se acha a não ser aqui, essa coisa é isso aqui, e essa coisa é impossível deixar para atrás, pois já não seria mais eu, já seria outra pessoa, já seria um estranho.

Não, eu não volto. Porque daqui nunca saí.

 

7/3/2016
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Lula: perseguição ou devido processo legal?

Nesse momento de tensão envolvendo o Lula, eu fico à espera de que ele não seja declarado culpado por tudo o que seu governo representou. E, embora, por cacoete da profissão, eu procuro analisar a questão por um prisma jurídico, sem teoria da conspiração, a coisa toda fica complicada quando o MPF solta uma nota e diz o seguinte:

“11. Após ser intimado e ter tentado diversas medidas para protelar esse depoimento, incluindo inclusive um habeas corpus perante o TJSP, o senhor Luiz Inácio Lula da Silva manifestou sua recusa em comparecer.

12. Nesse mesmo HC, o senhor Luiz Inácio Lula da Silva informa que o agendamento da oitiva do ex-presidente poderia gerar um “grande risco de manifestações e confrontos”.

13. Assim, para a segurança pública, para a segurança das próprias equipes de agentes públicos e, especialmente, para a segurança do próprio senhor Luiz Inácio Lula da Silva, além da necessidade de serem realizadas as oitivas simultaneamente, a fim de evitar a coordenação de versões, é que foi determinada sua condução coercitiva.”

Pergunta:

1 – Lula recusou em comparecer, conforme dito no item 11? O item 13 não menciona tal recusa ao fundamentar a suposta necessidade de condução coercitiva.

2 – O MPF considera que um cidadão, ao usar seu direito de requerer em juízo, atrai para si a necessidade de condução coercitiva? Quer dizer, a pessoa pedir HC no Brasil agora está sujeita a represália? Usar das ações disponíveis como parte do direito de defesa afasta a presunção de inocência?

E, ca pra nós, essa defesa de condução coercitiva como efeito do poder de cautela do juiz não cola. Qual é o risco à produção da prova? Se foi com base nesse poder geral de cautela, é preciso que se demonstre o risco. Oitavas simultâneas não precisam de coerção – basta marcar pro mesmo dia as oitivas!

Eu procuro manter a idéia – ingênua, eu sei – de que a justiça age conforme os fatos vão se apresentando. Fala-se que o juiz Sérgio Moro traçou uma estratégia baseada na operação Mãos Limpas da Itália. Se a justiça age com estratégia, significa que o script está pronto, e que os fatos têm que ser amoldados a ele. E isso é péssimo. Não digo que esse é o caso do Lula, mas se uma condução coercitiva foi utilizada para atrair clamor popular em favor da operação judicial (parte da Mãos Limpas era feita justamente dessa forma, com o uso da imprensa), estamos diante de uma escolha: ou uma justiça limpa e isenta de clamores por justiçamento, ou uma justiça seletiva aos humores das turbas, onde a cooptação do apoio popular se dá ao arrepio da lei. Isso sem contar com o eventual erro estratégico de atrair simpatia ao injustiçado – ainda que este tenha culpa…

Como já disse antes aqui, eu gosto de ser cauteloso ao dizer que a justiça é parcial e seletiva – o importante é o que está nos autos. Enriquecimento com a política não será exclusividade de Lula, embora se ele, segundo o próprio MPF em outra nota, deve ser tratado como todo mundo, ou todo mundo passa a ser tratado como ele, ou será um tanto hipócrita defender que alguém passe por tanto “perrengue” por causa de um apartamento ou sítio, enquanto coisa muito mais cabeluda por aí não tem merecido tanta atenção. Eu espero que Lula não seja culpado, mas vai ter um gosto amargo se for provado que ele praticou algo ilícito, não só pela decepção, mas por ver que tantos outros que refestelam-se nessa lama (vide os Cunhas, Renans, Aécios e outros tantos) em grau tão maior e que não são objetos dessa campanha por justiça.

Esse ódio ao Lula, muitas vezes acompanhada de um “não sou só contra o PT, mas se outros erraram, que paguem também!”, é seletivo, porque enquanto justificam-se que querem justiça contra todos, não parecem clamar por instituições fortes, que consigam investigar a todos. Para essa turba, justiça boa é a justiça que prende Lula. Só isso para satisfazer a sede de sangue que muitos hidrófobos têm. Se o preso for algum engravatadinho do PSDB, não se vai ter a catarse coletiva que foi a prisão do Lula – exceto, talvez, em alguns grupinhos mais radicais de esquerda.

Mas taí: não sei o que pensar: ou o PT está pagando por ter se lambuzado nesse conluio com os riquinhos, ou o PT está sendo injustiçado seletivamente, ou o PT teve a má-sorte de uma justiça desimpedida contra ele (e talvez só contra ele, quem sabe?). A verdade provavelmente está no meio disso tudo aí. Mas acreditar que só Lula poderá ter sido beneficiado com a política, ou que tal suposto beneficiamento é tão significativo quanto os de seus opositores, desculpe lá, mas nisso não acredito.

16/2/2016
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An open letter to Mark Manson

I have just read an article by you entitled “An Open Letter to Brazil“. I didn’t like it, Mark. Not because I am a Brazilian with a higher-than-average sensitivity when it comes to “gringos” (I am using the term just because you did, no offense meant) telling us what is wrong with us and our country. Believe me, I don’t care about that: I left Brazil a while ago and if I want to participate in the public debate in my new country (Norway), I must accept that anyone living in Brazil is entitled to share their opinion. And thinking about it, I think it is pretty childish to dismiss someone’s opinion because they are not from that place. I have an Austrian friend who has been living in Brazil for far longer time than I had, and people still show the “gringo” card whenever he criticizes something. I don’t want to be like that.

But nevertheless, I believe you didn’t get Brazil. Any fair analysis of a country should take into account its complexity, cultural aspects and history. You didn’t. You preferred to enlist some well known clichés and, in a very moralist way, decided to ditch them as plain wrong (some of them are, indeed, wrong) and, worst, as if they were the cause of Brazilians (bad) fate.

The Brazil you have been exposed is not the one I lived in for 30+ years. I have had people who hit my car, Mark. They didn’t have to be protected by friends and pretend it didn’t happen. They left notes with their phone numbers. I wouldn’t believe my friends would lie to the police to protect me. I worked as a lawyer for more than 11 years, Mark. I haven’t seen any witness who lied to protect or help my clients (their friends). Most of them used to come to me and say “Look, I will be your witness, but I won’t lie”. Friends lie to help friends here? Sure. Is it as common as you say? I don’t think so.

Once I discussed something with an American friend who lived in Brazil at the time: why despite being a very unjust country, Brazil has not the same kind of poverty found in Africa? She offered me an explanation that made sense to me: its social fabric. Family helps family. What you see as source of corruption, I – and others – see as a counterweight to inequality. We don’t have a  paternalistic state here (it exists only on paper), so family is our safety net. But according to you, that’s selfishness. You see, Mark, we come from different backgrounds. I got a chance to study, to travel, to see the world, thanks to the effort and sweat of my family. I wanna give them something back. I don’t care if they expect it or not. It seems right to me. I don’t think that’s punishment for being successful, and perhaps here lies our differences: I believe that thinking otherwise is, indeed, selfish. But the way you mix helping family and not caring about the collective, as if one is causing the other, is simply not true. They are different traces of our culture, but they do not explain each other – only if one wants a quick and superficial explanation.

The culture of wanting expensive and glamorous things and gadgets is not particular to Brazil. In developing countries, sometimes young girls and young men resort even to prostitution to get consumer goods. I am not saying the problem is as big as in Brazil. It just shows that the culture of consuming is a world problem – as you pointed out. I believe that it makes more sense to believe people consume and want expensive goods to feel included, not because Brazilians are inherently vain.

I find it interesting that you assume that policemen who take (and ask for) bribes justify their actions based on their family needs. I guess you know absolutely nothing about the roots of corruption in Brazil. I guess you don’t understand how Brazilians react to authority, and how their lack of understanding of their rights empower those in power. This submissive approach can be traced to our culture of “bacharelism” – ie., from a time that society was divided by those who had an University degree and those who didn’t. This can also be seen in books like “Casa Grande e Senzala” – which you should read. But this oversimplification of corruption shows your lack of understanding of the Brazilian psyche and the kind of superficial analysis that, frankly, is getting old.

I could go on: I could say about your explanation on how crime committed by some  poor Brazilians is motivated by vanity – hello criminologists, Mark Manson got the answer to Brazilian crime rates! But your article, frankly, ends up being a collection of moralist rants about how Brazilians do their things and somehow use merely cultural aspects of behavior in an attempt to explain the country’s serious problems. As if the country is made up of super narcissists who do not study or work. Serious, Mark – with whom have you been hanging out in Brazil? The ones I know work from 8-18, sometimes study at night just to get a brighter future. They might come late for dinner when invited – it’s alright, they are expected to arrive late. This is not selfishness, Mark – and here’s where you got it wrong – this is cultural.

Just to clarify things: I don’t like the “jeitinho” anymore than you do. I believe it contributes to the way we end up not building up better communities. But this rant on how people relate to their families and friends, frankly, is what I’d call “sociologia de botequim”. Which, by the way, is how you came up with your economic analysis: on debt (go see the numbers on household debt by countries by GDP, and compare Brazil with other countries before you suggest what you did), it is through credit that many Brazilians have access to some basic items (and yes, to superfluous things as well). On commodities: prices are low now, sure – but they are not that different than those of the last decade (with the exception of the pre-2008 boom). And rewriting the constitution? Really? What, Mark – please tell us – what should/must be rewritten? Is it too socialist? Too liberal? Too what? Because I can give you examples of constitutions that are more liberal / socialist / conservative / younameit than Brazil’s and they are in a better state than us.

It’s not that the Brazilian culture isn’t a part of the problem: it is. But you failed to see the traces of our culture that are the problem and instead focused on your little rants about the way some Brazilians  – likely those close to you – behave. You can’t get more superficial than that.

Next time you think you know Brazil and you think you have the answers, before writing an article, I suggest one simple thing: change friends, family, city – change something, because whatever you’re doing to understand the country, it’s not working. As Tom Jobim once said, “Brazil is not for beginners”.

Sincerely,

Francis

 

19/12/2015
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A culpa é da gravata

Uma das coisas mais chatas que existe é quando alguém compara o país de onde vem com o país onde mora. Eu às vezes critico algo aqui, porque morar fora não significa deixar de ser brasileiro. Mas não comparo. Há coisas fantásticas aqui, e coisas não tão boas na Noruega, e vice-versa. Mas permitam-me fazer uma exceção, até porque acredito que muitos vão se identificar com isso.

Primeiro, devo dizer que ando aqui “à paisana”: de bermuda e camiseta, portanto não sou identificável como advogado.

Fui a um cartório ontem, onde, para evitar trabalho, o tabelião mandou dizer que só a parte interessada pode solicitar um determinado documento. Detalhe: o documento é público, e qualquer um tem acesso. Não me identifiquei como advogado, e percebi que o tratamento é todo direcionado para não para resolver o problema do cidadão, mas para evitar trabalho que não seja gerador de renda para o cartório.

Depois, no outro dia, fui entrar no forum, esquecendo-me de que não é admitida a entrada de pessoas com bermudas – nem que apenas para usar o banco que lá funciona. A funcionária da recepção – super educada e um pouco constrangida, se ofereceu, como faz a qualquer um que precise, para arrumar uma calça para que eu pudesse entrar, mas acabei indo a uma lotérica.

O que me incomoda é que o Brasil não é exatamente um país frio, e essas regras absurdas persistem. Na Noruega – e aqui vem a comparação antipática – quando fui assistir a audiências lá, em algumas vi pessoas de bermuda ou de shorts, ainda que a temperatura naquele país não seja exatamente aquela do sertão baiano…

Andam mal as coisas quando a compostura é medida pela vestimenta, e não pelo respeito ao cidadão. É o país onde a gravata adiciona credibilidade de forma automática, seja o Zé da Esquina, seja o Eduardo Cunha. Eu não estou dizendo que a Justiça não precisa de seus símbolos para induzir respeito – mas estes deveriam ser usados pelo aparelho judicial,  e não impostos aos jurisdicionados em um país que se diz democrático e sujeito ao império da lei e da igualdade.

Para não ser injusto, fui a outro cartório, cujo atendimento impressionou pela cortesia e pela atenção dos funcionários, e pela forma com que se dispuseram a resolver a questão, o que demonstra que há esperança.

 

14/8/2015
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Li na Folha de hoje artigo de José Padilha, o cineasta de “Tropa de Elite”, que a corrupção sempre existiu, porém, com o governo do PT, teria atingido “um outro patamar”.

Gostaria de ter a certeza do cineasta. E explico minha razão de não tê-la:

Um dos argumentos do PT e do governo é que a justiça, nos últimos anos, funciona e investiga, daí a percepção de que a corrupção seria enorme nos últimos tempos e maior do que em tempos anteriores. Artigo na mesma Folha, de autoria de Joaquim Falcão, corrobora essa tese, afirmando que, hoje em dia, há um time de novos procuradores e juízes que trabalhariam de forma não convencional, mais moderna, ainda que não totalmente de acordo com as doutrinas tradicionais.

De outro lado, durante o mensalão, o PT argumentava a parcialidade da justiça, que teria mirado no partido muito mais do que em seu rival, o PSDB – prova disso seria o atraso no julgamento do mensalão tucano. “Teoria da Conspiração”, responde o prof. Wilson Gomes (cujos posts recomendo, ainda que nem sempre concordo com o teor, mas são sempre boa fonte de reflexão) em seu Facebook sempre que alguém apresenta esse argumento. No entanto, muita gente boa que conheço, que renega essa “teoria da conspiração”, não perdia tempo em chamar algum ministro do STF de vendido ou de parcial quando a decisão proferida contrariava suas preferências jurisprudenciais – ainda que defensáveis.

Eu gosto de analisar uma decisão judicial por seu mérito. Só em casos teratológicos é que começo a suspeitar de parcialidade. Afinal, uma justiça açodada quanto ao mérito da decisão só contribui para o descrédito da instituição.

Porém, da mesma forma, não há como negar que a justiça do Brasil, em determinados períodos, era curvada ao interesse de grupos políticos. Mais não precisa do que a declaração de Antônio Carlos Magalhães, que afirmou ser, ele, o “controle externo” do judiciário baiano.

Ou seja: com a possibilidade de parcialidade do judiciário, tanto o atraso no julgamento do mensalão tucano quanto decisões de ministros no caso do mensalão podem ter causas perfeitamente justificáveis legalmente, quando podem ter motivações tendenciosas.

Esse é o problema, penso: a confiabilidade das instituições judiciais precisa ser recuperada. E só o será quando as decisões judiciais forem compatíveis com as leis vigentes, e não quando forem “criativas”, como sugere o artigo de Joaquim Falcão. Precisamos de decisões críveis e respeitáveis, e não daquelas justiceiras, onde os fins (prevenir a corrupção) justificariam os meios (atos judiciais desconformes com a boa técnica jurídica). Uma ato “justiceiro” praticado contra um corrupto de um partido deixa margem a dúvida de outro suspeito de corrupção teria sido poupado, quando, na verdade, pode muito bem ser o caso de inocência.

Não estou querendo dizer que esse é o caso da operação Lava Jato – quem o disse, de outra forma, foi Joaquim Falcão. Esse é o problema: a discussão está tão politizada que desconfia-se até dos pronunciamentos de juristas sobre o tema. No que me consta, podem os juízes e promotores até estar sendo bastante competentes e agindo sob a mais estrita legalidade. Mas a justiça precisa se impor. Dialogar com a sociedade não implica em ministros dando declarações o tempo todo na imprensa, antecipando resultados de processos que não julgam – vide o caso de Gilmar Mendes com a Ação sobre a constitucionalidade das doações de empresas aos partidos, por exemplo. Eu até imagino que muitos procuradores, juízes e promotores precisam da imprensa até para fugirem da pressão constante que devem receber nos bastidores. Mas gostaria que o Poder Judiciário fosse respeitado independente de suas decisões, e não sujeito à desconfiança constante de que agem motivados a perseguir determinados grupos.

Ou seja: precisamos de parâmetros claros para sabermos quando estamos diante de um judiciário neutro, ou quando estamos diante de um judiciário tendencioso. A sociedade brasileira precisa de balizas claras, que não deixem dúvidas quando à legalidade de suas decisões e do desinteresse ideológico destas.

Enquanto isso não for resolvido, gostaria de ver provas de que a corrupção do PT é maior do que a dos outros, ou de que esses “outros” teriam sido tão corruptos quanto, mas presenteados com uma justiça mais leniente. Provas, e um real de big big, como se diz na Bahia… 🙂

27/5/2015
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Maratona de Copenhague

No último dia 24, corri a minha 13ª maratona, desta vez em Copenhague. Desde 2009, tenho conseguido manter a prática de correr duas maratonas por ano, uma por semestre. Ao me mudar para Oslo, em agosto de 2011, as maratonas do primeiro semestre têm sido difíceis em razão das baixas temperaturas e, principalmente, da dificuldade de treinar no inverno. Além disso, resta pouco tempo disponível  entre finalmente poder treinar na rua (depois de períodos de gelo e neve) e a realização das provas. Tanto assim que tive que desistir de correr em Roma, no último mês de março, mesmo já inscrito e ansioso para reencontrar amigos corredores – eu não poderia me atrever a encarar uma maratona com temperaturas muito baixas, ainda mais sem ter treinado a contento entre novembro e março. Passada a decepção, tive que procurar algum lugar pra correr ainda no primeiro semestre, e percebi que tinha a maratona de Copenhague e a de Estocolmo – optei pela primeira.

Embora tenha treinado o suficiente para completar a prova, não consegui treinar forte como eu gostaria, pois o tempo em Oslo não foi lá muito bom nessa primavera – chuva e temperaturas muito baixas foram meio que desestimulantes. Mas o importante era encarar a danada da prova, e na semana passada, na sexta, peguei o vôo para a capital dinamarquesa.

Foi uma das maratonas mais bem organizadas que já vi. Quase sem filas para pegar kits ou deixar bagagens, banheiros químicos e urinóis em grande quantidade, muitos postos de hidratação  – tudo funcionando muito bem. A exposição não era enorme, mas tinha muitas coisas legais. Tinha a famosa “pasta party”, e foi o maior prato de massa que já vi servirem em eventos do tipo.

No sábado, fui andar um pouco pela cidade, que estava bem festiva com seu carnaval – cheio de escolas de samba!

A prova é excelente, e muito boa para quebrar recordes: a cidade é praticamente 100% plana, então não me recordo de uma única subida no trajeto. Claro que deve ter tido aclive em alguma subida de ponte, ou algo assim, mas no geral não vi dificuldades. A única coisa “chata” foi que algumas vezes tínhamos que correr em paralelepípedos, alguns mais antigos e em rotatórias, o que forçava uma diminuição de ritmo. No final da prova, água e cerveja (sem álcool) a vontade, além de iogurte, frutas, etc. Completei a prova em 3h13m43s, meu melhor tempo em uma maratona no primeiro semestre. Foi uma oportunidade desperdiçada de quebrar meu recorde pessoal, primeiro semestre é sempre mais complicado.

Recomendo a prova. Copenhague é uma cidade que vale a pena conhecer, ainda mais nessa época do ano. Eu já tinha ido lá várias vezes (fica a só uma hora de vôo de Oslo, ou 14-15h de ferry-boat), mas sempre no inverno, portanto não dava para curtir a cidade plenamente.

A meta agora é tentar correr nas outras capitais nórdicas – Estocolmo, Reykjavik e Helsinque. O chato é que, dessas, só Estocolmo tem sua prova no primeiro semestre, e não quero deixar de correr a maratona de Oslo. Ou vou acabar tendo que correr duas vezes no segundo semestre do ano que vem, ou vou ter que deixar de correr em Oslo.

Maratona de Copenhague

Maratona de Copenhague

 

 

 

 

 

15/4/2015
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Podridão

Podre. É isso que a classe política brasileira é.

Vejamos:

  • Aécio Neves é contra o impeachment.
  • Aécio Neves esculachou Renan Calheiros e sua eleição para presidente do Senado.
    Renan impôs derrota ao Governo reprovando o ajuste fiscal, por acreditar ser investigado pelo MP com a ajuda do Governo.
    Aécio exalta Renan.
  • Renan e Eduardo Cunha fazem dobradinha, inclusive propondo redução do número de ministérios.
  • Governo nomeia Henrique Alves para o turismo, figura próxima de Eduardo Cunha.
    Eduardo Cunha aprova, junto com 96% do PSDB, a tal flexibilização das terceirizações.
    Renan, padrinho político do ex- do turismo, avisa que vai barrar as terceirizações.
    Aécio faz o PSDB mudar a posição depois dos protestos nas redes sociais e agora é contra as terceirizações, junto com o PT.
    Eduardo Cunha avisa que vai retaliar Renan e reprovar projeto do Senado que validou incentivos fiscais.
  • Aécio admite que o impeachment é uma possibilidade.

Essas pessoas não têm posições. Usam projetos do interesse da população como arma para punir seus desafetos. Ora, que essa politicagem sempre existiu, é muito claro. Porém, em menos de dois meses, os fatos acima ocorreram e vêm ocorrendo. Os políticos mudam de posições como birutas de aeroporto, em curto espaço de tempo. Tudo diante de um governo atônito que se humilha perante gente como essa em nome de uma governabilidade que já perdeu o sentido: governabilidade para quê? Para que gente como essa imponha matérias que são contrárias ao programa de governo anunciado?

Em meio a tudo isso, protestos “Fora Dilma”. Eu entendo isso. Acho até legítimo pedir a saída da presidente, embora não consigo concordar com tal saída. Mas me preocupa:

  •  a falta de protestos contra Renan, Eduardo Cunha, Aécio (sim, esse que está se saindo um oportunista de marca maior), Bolsonaro, etc. Lembremos que os dois primeiros estão sendo investigados pela Operação Lava Jato;
  • a falta de protestos destes que pedem o Fora Dilma contra a corrupção desses senhores citados, bem como indefinição desses grupos que vão pra rua sobre esse congresso, sobre esses congressistas;
  • a leniência com Renan e Cunha – André Vargas, por contato com doleiro, caiu. Demóstenes Torres também caiu por ligações com Cachoeira. Renan e Cunha estão aí, como paladinos e presidentes das respectivas casas legislativas. Mas a Dilma é a Geni: só ela apanha.
  • esse governo pusilânime que é incapaz de legitimar-se pelo poper popular que o elegeu, preferindo lastrear-se com esse PMDB que está aí, sendo enfrentado a engolir derrotas que ferem direitos dos trabalhadores e da população em geral.
  • a completa falta de civilidade e modo agressivo que impedem qualquer debate razoável sobre política no país. Essas coisas malucas acontecendo, esses congressistas irresponsáveis tratando de temas delicados como se fossem mixaria em seus projetos de poder, e as pessoas em seus monólogos e xingamentos de turba: “petralhas”, “coxinha”, “Fora Dilma”, etc. Viramos uma espécie de Oriente Médio. Pior, país de fundamentalismo político, onde reflexão, razão, argumentação, deram lugar a uma catarse coletiva e cega, um fla-flu.

Sempre acreditei, ainda que ingenuamente ou equivocadamente, ter uma resposta pra tudo. Se me perguntarem o que eu acho que deve ser feito com os impostos, com o câmbio, com a corrupção ou com o final da novela, eu sempre teria uma opinião, ainda que leigo nesses assuntos. Mas me preocupa não ter idéia de como fazer o país respirar, se acalmar, e ser capaz de refletir. Bárbaros viramos todos, quer quando nos matamos nos guetos, quer quando discutimos política. E enquanto isso, Renan, Cunha, Aécio e outros vão dançando essa valsa particular onde ninguém os questiona, e onde todos os permitem dispor dos interesses do país sem que precisem prestar contas.

 

12/4/2015
por oculos
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Corrida e companheirismo

Faz tempo que escrevi aqui – esse é o primeiro post em 2015. Tarde pra desejar Feliz Ano Novo, mas, enfim…

Eu sei que existe uma tendência no meio esportivo de seguir dicas de praticantes mais experientes de esportes, de personal trainers, só porque estes acumularam alguma experiência. Eu não sou contra isso per se, mas sou adepto do fato de que determinadas práticas/produtos/dicas funcionam para uns e não para outros. Por isso fico sempre meio reticente em dar conselhos sobre corrida: no fundo, só sou alguém que corre. Não entendo nada de esporte, mas as pessoas imaginam que alguma coisa eu devo estar fazendo corretamente, já que corro há mais de 6 anos, sem nenhuma lesão significativa e com melhorias no meu desempenho apesar de diminuição no ritmo de treinos.

Esse meu ceticismo em relação a dicas, no entanto, não impede que vez por outra eu tente alguma coisa nova – afinal, sempre se pode melhorar. E às vezes gosto de ler sobre corridas para ganhar motivação, principalmente quando, no hemisfério norte, treinar se torna um desafio ainda maior por causa do clima. Mas é claro que a gente lê coisas contraditórias, como em uma Runners World que li no Brasil e que, em um mês, publicou uma dica de que não se deve se alimentar 5, 6 vezes ao dia, pois nós não fomos “programados” pra isso, e, páginas depois, vinha a sugestão de um nutricionista para fracionar a alimentação em porções ao longo do dia. Enfim…

Mas às vezes a inspiração não vem das técnicas, mas das atitudes. Li dois livros inspiradores sobre corridas – “Do que eu falo quando eu falo de corrida”, de Haruki Murakami, e “Nascido para correr”, de Christopher McDougall. Neste último, há conselhos bastante controversos, como a sugestão de correr com os pés descalços. Mas o que inspira nesses dois livros são os aspectos comportamentais da corrida, que me inspiraram bastante.

No livro do Murakami, o autor narra períodos de “running blues”, ou certa falta da vontade de correr – isso creio acontecer com todos de tempos em tempos. Mas no “Nascido para correr”, não obstante várias histórias interessantes (mas nem sempre verossímeis, dirão alguns), algo me chamou a atenção: no livro, o autor questiona a razão da aptidão nata dos Tarahumara, tribo indigena do México, para as corridas de longa distância. E uma das explicações dele é o companheirismo durante a corrida.

Claro que companheirismo na corrida pode ser apenas um truísmo, uma filosofia de botequim, um desses conceitos de “auto-ajuda” do qual estamos impregnados hoje em dia. Mas, embora eu não seja superticioso, acredito haver algo nisso aí.

Eu sempre preferi correr sozinho, pois podia correr no meu ritmo, ouvindo minha música. Conheci alguns amigos e comecei a correr com eles. Mas cada um corria no seu ritmo, e era quase como correr sozinho. Os Tarahumara correm em duplas, segundo o livro. Então chegou uma época quando meus amigos tiraram umas férias das corridas, por lesão, e só um deles estava disponível. Treinamos juntos e, alguns meses depois, foi a minha melhor maratona. E não que ele imprimisse um rimo mais forte – corríamos até controlando o ritmo, embora ele fosse bem mais rápido que eu. Foi um período muito bom de bons treinos.

Depois, já aqui em Oslo, comecei a correr com outro amigo, corredor desde sempre, mas que estava meio parado, portanto correndo mais devagar que eu. Como passei meio que a preferir correr acompanhado (mesmo sem ter refletido no tal do costume dos Tarahumara), não me importava, e fazíamos treinos longos a uma velocidade que, para mim, não era desafiadora, mas que era muito mais prazeirosa. O resultado: treinando com alguém por seis meses, em um ritmo tranquilo, rendeu resultado melhor do que dois anos e meio treinando sozinho: fiz minha melhor maratona até então.

Claro, em corrida há o aspecto psicológico, há o treinamento, há a alimentação – todos são fatores decisivos. Não vou aconselhar ninguém a correr com alguém baseado em o que seria uma crença, tradição ou talvez até superstição. Mas parece que, para mim, tanto na corrida como na vida, dividir a batalha com alguém parece render mais do que se matar individualmente.

Eu ainda faço a maioria dos meus treinos sozinho, que é quando treino no meu ritmo e aprendo mais sobre limites, sobre minhas próprias características ao correr. Mas tenho cá pra mim que são os longões recheados de “resenhas” (não sei se essa gíria é baiana, nordestina, ou brasileira) que mais contribuem para resultados e experiências mais realizadores.

 

13/12/2014
por oculos
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De onde você é?

Eu sou daqui! 🙂

Ser brasileiro, em muitos momentos, é um privilégio: certas questões não nos causam dissabor ou mesmo trauma. Um exemplo é o fato de aceitarmos bem quem é de origem diversa, e nosso complexo de vira-lata tem um lado bom que é justamente a supressão da xenofobia. Claro, noves-fora a quantidade de idiotas que reclama da acolhida que o Brasil recentemente tem dado aos imigrantes de países pobres, ou mesmo da extensão do programa Bolsa Família a estrangeiros, muito embora eu acredito que esse pensamento pequeno se trata mais de um movimento reacionário recente, do tipo “foi o PT que fez? Soy contra!”, já que quero crer que o brasileiro médio – se é que existe algo médio no Brasil (tudo parece ser extremado) – sempre é solidário: “mesmo quando as minhas mãos estão ocupadas em torturar, esganar, trucidar, o meu coração fecha os olhos e sinceramente chora…”. Não digo aqui que não temos preconceitos ou que não somos racistas, mas que o problema da xenofobia, no Brasil, não tem uma dimensão preocupante, e espero que continue assim.

Mas, como sempre, saí do assunto. O que eu quero dizer é que nós adoramos fazer novas conexões, nos comunicar, descobrir nossas origens, já que muitos de nós tivemos antepassados que foram jogados aqui, trazidos como escravos, como degredados ou como auto-exilados para tentar a sorte no novo mundo. Talvez seja isso que nos tenha acostumado a uma busca por uma identidade mediata, já que a identidade brasileira, imediata, substituiu aquela identidade originária. Por isso há o banzo de se conhecer um pouco mais do passado, de se saber de onde veio. Claro, o mesmo complexo mencionado no começo do texto às vezes motiva essa busca, mas também há aquela feita mesmo pela questão da identidade, ou pela história interrompida, como imagino que seja o caso de muitos de nós com ascendência africana (ainda que a minha não apareça tanto na pele). De toda forma, não se é menos brasileiro por não se ter origens no Brasil, e ter origem estrangeira, via de regra, não enseja preconceito além dos estereótipos.

Algo que me chamava a atenção nos primeiros meses de Noruega é que nós, estrangeiros aqui, sempre que víamos alguém com fisionomia fora do padrão loiro-branco-olhos-claros, sapecávamos a pergunta: “de onde você é?”. A pessoa, um tanto exasperada (normalmente ela já sabia onde aquilo ia dar), respondia “daqui da Noruega”. E aí nós, “inocentes”, insistíamos “sim, mas originariamente, de onde você é?”. Com o tempo, percebi que isso é meio que um tabu: a imigração por aqui é recente, e o país ainda tem seus percalços a lidar com isso. Os jovens, filhos de pais que vieram nas primeiras levas de imigração dos anos 70, não se sentem tão confortáveis em ver sua “norueguesidade” nagô questionada, quer porque são muitas vezes vítimas de preconceito (ou porque seus pais o foram), quer porque no debate político suas religiões-cores-etnias muitas vezes são questionadas, como a demonstrar que eles não seriam 100% noruegueses, ou porque simplesmente a pergunta é um pouco invasiva, e tudo o que é meio invasivo aqui não é tão aceito como no Brasil. No começo me impressionava que ninguém me perguntava de onde eu vinha, e eu sempre ficava empolgado quando alguém o fazia, pois era sinal de interesse em conversar, em fazer contato. Seja qual for a razão da reserva com a pergunta, aprendi que aqui o “de onde você é?” possui várias acepções, diferentemente do Brasil, onde é apenas um início de uma conversa ou a demonstração do interesse em conhecer alguém mais a fundo.

Nesse aspecto, acho que a tragédia da nossa história talvez tenha forjado uma conciliação entre identidade e pátria, entre origem e presente, que talvez só exista em certa medida nos Estados Unidos. Infelizmente, a Europa, origem do próprio conceito do que é ser cosmopolita, consegue ser tão retrógrada e não permitir que questões de mera identidade sejam tratadas como tal, mas sim como ameaças ao exercício de direitos ou mesmo de vias de demonstração de puro preconceito. E tragédia não faltou à Europa…

 

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