15/7/2014
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Período Eleitoral Hipócrita

Ontem eu disse aqui que preferia que características mais “humanas” de candidatos me interessavam mais do que os velhos rótulos do tipo “honesto” e “competente.” Assim, se disserem que um candidato é “cachaceiro”, “cheirador”, “mulherengo” ou coisas assim, ficarei mais interessado em conhecer melhor o candidato porque soa mais autêntico – não porque essas características sejam necessariamente desejáveis.

Ando por busca de autenticidade. Acho que andamos todos. Mas na época eleitoral, nos perdemos na torcida.

Vejamos a copa como objeto das discussões dos candidatos: a oposição diz que o governo é oportunista com a copa. A mesma oposição que previa que a copa seria um fracasso, uma vergonha. Como se o governo não pudesse se louvar de uma obra sua. Ou seja: querem que o governo seja culpado por tudo o que deu errado, mas não querem que seja parabenizado por aquilo que deu certo.

Mas a hipocrisia não escolhe lado: Aécio Neves foi criticado por ser contraditório, já que criticou o tal “oportunismo” do governo e teria vestido a camisa da seleção. Caramba, o que é que a camisa tem a ver com as calças? Quer dizer que ele, como brasileiro, não poderia usar a camisa da seleção que seria inafastável oportunismo? Gente, a superficialidade das análises e o julgamento do irrelevante são de surpreender. O comportamento de Aécio ao criticar o governo foi hipócrita, mas não por ter usado a camisa da seleção. Os mesmos que o criticam por isso o criticariam se ele não tivesse usado a tal camisa: diriam que ele é derrotista. Ou seja: as pessoas não humanizam mais as coisas; agem como se tudo tivesse uma segunda intenção, como se as pessoas não tivessem interesse legítimo naquilo que fazem ou, quando o tem, acham que esse interesse é mero oportunismo. É como se Aécio torcer pela seleção não fosse normal, e como se o governo se beneficiar do sucesso da copa também não o fosse.

E assim começamos o período eleitoral: com a velha argumentação rasteira, com a perda de tempo em discussões inúteis, sem que nenhuma proposta concreta seja conhecida ou debatida.

14/7/2014
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Argentina e nosso próprio opróbio

Vi muita gente escrever no Facebook sobre grosserias feitas por torcedores argentinos durante essa copa do mundo, e compreendo a insatisfação. De desfilarem com uma coluna vertebral em tosco deboche em relação a Neymar a queimarem a bandeira do Brasil… em pleno Brasil, os argentinos não foram exemplo de bons convidados.

Razões não faltaram, assim, para torcer pela Alemanha, cuja seleção se comportou decentemente no Brasil – antes e depois da vitória. Se isso não for suficiente, a vitória possivelmente comprada dos Argentinos sobre o Peru em 78 ou o possível doping que Maradona admitiu terem aplicado na seleção brasileira em 1990, ou ainda as músicas racistas que entoavam no passado contra o Brasil, com certeza impede que qualquer um tenha um pingo de simpatia pela seleção do país vizinho, noves fora o fatídico gol de mão.

Mas questiono eu, que gosto de questionar coisas: um país feito com gente grosseira que vai a um estádio xingar uma presidente ou que reduz a crítica a um candidato a xingá-lo de “cheirador” (o que, se for verdade, merece compreensão, porque hoje em dia procuro características de candidatos que o tornem humanos, e não seres pasteurizados, sem manchas, lavados com Omo Dupla Ação®) tem lá muita moral pra exigir civilidade dos dito cujos? Nós, que nos comportamos mal em quase qualquer oportunidade, podemos falar muita coisa?

Não que eu ache que devemos relevar a incivilidade dos argentinos. Devemos, sim, é não esquecer da nossa. Torço contra a Argentina porque a natureza me impede de torcer contra o Brasil, porque penso que é preciso muito sangue no olho pra torcer contra o próprio país. Mas não vamos nos esquecer que nosso telhado é de cristal. E que a grosseria deles nos inspire a deixarmos a nossa, porque a coisa toda é vergonhosa.

 

 

 

24/6/2014
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MidnightSun Marathon

Desde quando comecei a me interessar por maratonas, lá pelos idos de 2009, ouvia falar da maratona do Sol da Meia-Noite, em Tromsø, na Noruega, até por já ter morado no país anos atrás. A proposta é correr à “noite” no dia mais longo do ano, quando o sol não se põe. Isso por si só já tornaria a maratona exótica e atraente.

Mas há mais que isso: a cidade de Tromsø oferece um visual tremendo, o que, pra quem consegue admirar alguma coisa enquanto ofegantemente se arrasta quilômetro a quilômetro, é sempre uma boa motivação para correr.

Eu confesso que fui um pouco desleixado dessa vez: não considerei que o tempo em Tromsø nessa época do ano é imprevisível. Ano passado, por exemplo, a temperatura estava em torno de 15 graus – excelente para uma maratona – embora eu particularmente prefiro acima dos 20. Nesse ano, a temperatura ficou em torno de 6 graus. Isso não seria problema, porque eu estou acostumado a correr de camiseta em Oslo em temperaturas semelhantes. O problema é que lá ventava muito, dando a sensação de estarmos a 0 grau, ou algo assim. Eu fiquei nervoso o dia inteiro, pois não sabia se deveria usar uma jaqueta corta-vento, ou se deveria correr com a roupa com a qual já estava acostumado.

Decidi, então, pelo meio-termo: usei apenas uma camisa de corrida, mas, dessa vez, de manga comprida. Na verdade, acho que não fez diferença, pois o corpo estava logo aquecido e corri confortavelmente. Claro, usei uma luva, porque, se por um lado sou pé quente, por outro lado sou mão fria. Haha, sem graça.

Mas enfim, a prova foi linda, mas teria sido ainda melhor se o céu estivesse claro. A paisagem é muito bonita, com montanhas com topos cobertos de neve à vista durante quase todo o percurso. Teria sido maravilhoso ver aquilo sob céu azul, mas não deu. O percurso é bem plano, com umas subidinhas aqui e ali, mas nada desafiador – exceto a ponte que conecta a ilha onde fica boa parte da cidade ao continente, onde a subida é mais longa.

Essa deve ser a mais conhecida prova de atletismo da Noruega – fora da Noruega. Vi muitos estrangeiros, e nem na maratona de Oslo vejo tantos participantes internacionais. Entre as provas realizadas no mesmo dia – maratona, meia, 10k e outras pra crianças – éramos 58 brasileiros. Quer dizer, 57, porque, por algum motivo, a organização do evento me colocou como norueguês, mesmo tendo informado minha nacionalidade corretamente.

Mas a participação do Brasil não se resumiu à corrida: eram muitos os brasileiros na torcida, mas nada igual ao entusiasmo dessa brasileira. A reportagem está em norueguês, mas basta ver o vídeo pra perceber. :) Enfim, brasileiros animando o mundo das corridas. Aliás, na maratona de Oslo do ano passado, a escola de samba Unidos de Oslo (ou foi o grupo Sambaladies?) também animou o percurso.

Quase não treinei durante o semestre passado. Entre 20 dias no Brasil, gripe que me tirou do treino por uns 10 dias e outros percalços, acabei não me preparando bem para essa prova. O resultado – 3h24m41s – foi melhor do que eu esperava, considerando o tempo, mas já começo a ficar chateado, pois já se vão quase 2 anos desde que completei a prova abaixo de 3h15. Está na hora de voltar a ter seriedade nos treinos, mas é difícil sem os amigos corredores com quem treinava em Conquista.

Depois da prova, acredito ter tido hipotermia. Uns 5 minutos após a chegada, comecei a tremer de frio, e apressei minha volta ao apartamento. Chegando em casa, corri pro chuveiro e fiquei uns 15 minutos debaixo da água quente. Ao desligar o chuveiro, voltei a tremer de frio. Olhei no espelho, e os lábios estavam azuis! Voltei pro chuveiro e a água quente começou a esfriar após alguns minutos. Aí fiz logo um chá e corri pra debaixo da coberta. Só depois é que comecei a ficar mais tranquilo.

Trata-se de uma maratona exótica, mas muito bem pensada e que conta com excelente apoio dos moradores. Quase todo mundo ia pra porta de casa para dar apoio aos corredores – foi talvez uma das maratonas com mais apoio popular nas ruas que já vi. O apoio era tanto que tinha trechos onde o tráfego de veículos não era interrompido, pois os motoristas iam super devagar, parando para os corredores. Diferente de Curitiba, por exemplo, onde vi motoristas quase que jogando o carro pra cima dos corredores, com visível mau humor pelo transtorno do trânsito interrompido aos domingos.

Enfim, um sonho realizado é sempre bom. Foi minha 11ª maratona, e por enquanto tem sido bom manter a idéia de correr 2 maratonas por ano. Penso em mudar para meia-maratonas, porque depois da prova dá pra farrear um pouquinho. Mas, por outro lado, uma maratona é sempre uma maratona. Sacrificante, dolorida, suada, mas sempre recompensadora. Vamos ver. :)

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26/3/2014
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Data centers no Brasil e a aprovação do Marco Civil da Internet

Depois de muitos percalços, incluindo a chantagem do PMDB, foi aprovado ontem pela Câmara dos Deputados o projeto que cria um Marco Civil para a Internet. Foi um avanço muito grande. Com o advento da internet, juízes, promotores e advogados acabavam tendo que aplicar regras de direito tradicionais que não são definitivamente apropriadas para a realidade digital.

É de se lamentar o atraso e o equívoco de como alguns assuntos foram tratados na discussão do projeto: desde o ano 2000 a União Européia já dispunha de legislação específica para disciplinar um assunto tão básico quanto a responsabilidade por conteúdo postado na internet.

Mas o pior é o velho complexo de vira-lata: Quando a Presidenta Dilma Rousseff reagiu à espionagem americana praticada pela NSA, propondo que fosse incluída no projeto do Marco Civil a obrigatoriedade de instalação de data centers no Brasil pelas empresas que coletam dados de cidadãos Brasileiros, houve uma revolta geral e muitos “especialistas” começaram dar opiniões de que isso seria impraticável. Elio Gaspari, da Folha de São Paulo, chamou a proposta de “empulhação” e “parolagem”.

Tais opiniões refletem o tamanho do complexo de vira-lata de alguns brasileiros ou a submissão de grande parte dos formadores de opinião aos interesses estrangeiros ou econômicos. E raramente se ouvia a opinião de alguém da sociedade civil sobre o assunto.

Um argumento comum nos links acima seria o do custo: as empresas não arcariam com tais custos. Balela. Um país que figura em terceiro lugar em número de usuários do Facebook seria um mercado nada desprezível para qualquer empresa.

Esse mesmo tipo de chantagem econômica aconteceu quando a Europa implantou, já em 1995, a Diretiva de Proteção de Dados Pessoais. Essa norma, que foi implementada por todos os países membros da UE, proíbe a transferência de dados pessoais de seus nacionais a países que não ofereçam proteção adequada.

Os EUA, então, tiveram que correr atrás para firmarem um acordo com a Europa para que companhias que processem dados de europeus ofereçam o mesmo nível de proteção que sua legislação objetiva oferecer a seus cidadãos.

Agora é impressionante que ninguém tenha visto nenhuma menção a esse importante paralelo. Não que instalar data centers no Brasil seria exatamente a mesma coisa, mas a idéia de impedir que dados de brasileiros sejam coletados e processados no estrangeiro não é estapafúrdia e nem é inédita no mundo.

Triste ver que a Europa é vista como modelo no que se refere a legislação de proteção a dados pessoais e que, quando se implementa algo nesse sentido no Brasil, só se vê o velho complexo de vira-lata misturado com a velha submissão a interesses econômicos estrangeiros.

Perdemos a oportunidade de começar a implementar um regime de privacidade de dados, ainda que por meio de marco regulatório diverso.

Agora, ironia maior: já a diretiva européia de retenção de dados enfrenta críticas e inclusive tem sua constitucionalidade atacada em alguns países membros, por supostamente violar alguns direitos e garantias individuais. Aí sabe o que o se faz no Brasil? Implementa-se a obrigatoriedade de retenção de dados no Marco Civil!

Não é que eu não seja contra a retenção de dados – pelo contrário. Só quem já passou pelo desgosto de ser vítima de difamação na internet sabe como é ruim bater de cara com o provedor de serviços, que afirma que os dados da conexão de onde partiu a agressão já foram apagados. O assunto é mais complexo, pois há proteção de privacidade envolvida.

Agora vejam: as companhias internacionais que têm usuários no Brasil, cujos dados não serão armazenados no Brasil por força da retirada dessa obrigação do projeto do Marco Civil, não estão necessariamente sujeitas a uma legislação que, curiosamente, determina que mantenham os dados armazenados! Claro, essa é uma análise superficial, pois os provedores de conexão, por exemplo, estarão no Brasil e terão que cumprir a lei. O Marco também tenta definir a responsabilidade de empresas estrangeiras que tenham clientes brasileiros. Mas essas empresas poderão estar sujeitas a regulação de seus países que… podem inclusive proibir tal retenção!

Enfim, muito a comemorar o Marco Civil da Internet. Mas, infelizmente, é digno de pena nosso complexo de vira-lata.

 

17/1/2014
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Alfândega e política industrial

Antes de escrever esse post, tenho que fazer duas advertências: uma, a de pedir escusas se o post parece algo tipo mais-um-post-de-emigrado-metido-a-besta-porque-mora-no-exterior. Não é. Tenho consciência que morar fora tem qualidades e defeitos, que o Brasil nem é tão ruim quanto achamos, nem tão bom quanto gostaríamos. Sei que muita gente que emigra ou não consegue se adaptar fora e acha que tudo no Brasil é melhor, ou começa a desancar tudo o que é brasileiro, como se fôssemos o pior dos povos. Eu (acho) que estou no meio termo nesses extremos.

A outra advertência é que não entendo nada de economia, sempre achei que o Brasil deveria defender sua indústria, mas começo a perder a paciência com nosso empresariado. Não sei se abrir a economia totalmente é o ideal, mas também não estou seguro que o nosso protecionismo está nos levando a algum lugar.

Explico, agora, o motivo do post e das advertências: no Brasil, eu costumava vez por outra comprar alguma coisa que precisava no eBay. Não só por causa do preço, mas porque em Conquista simplesmente era difícil achar coisas como uma lente para uma máquina fotográfica, ou um adaptador qualquer para o Mac. Infelizmente, no Brasil, algumas coisas só se conseguem via eBay ou via “Feiras do Paraguai”. Normalmente, as encomendas pelos Correios demoravam de 20 a 30 dias (com alguma sorte, eu recebia algo em 15 dias), e tinha que ir retirar no correio e pagar aquele imposto maravilhoso que às vezes era 60%, às vezes era 60% + ICMS.

Aqui na Noruega comprei coisas fora do país algumas vezes. Quase nunca vale a pena, pois o preço local é quase sempre o mesmo do preço pago no exterior acrescido do imposto (que aqui é VAT, e quase tudo tem imposto de importação zerado). Mas às vezes é mais fácil comprar fora do que aqui, pois nem sempre sei onde achar determinado produto ou o frete às vezes é caro, mesmo sendo doméstico.

Mas semana passada me espantou: pedi algo pela internet, e demorou um pouquinho mais do que o habitual. Já recebi produto da Amazon aqui em 3 dias. Esse produto demorou 15 dias, mas considerando que pedi após o natal, e considerando os problemas climáticos dos EUA, até que dou o desconto.

O que me impressionou, porém, foi a eficiência alfandegária. Ao chegar na Noruega, normalmente o produto só fica na alfândega por um dia ou menos. Dessa vez, ficou dois dias, e eu estranhei. No terceiro dia, recebo em casa uma comunicação do correio: é que o produto veio sem recibo, eles não tinham como calcular o imposto. Veio, então, um link para que eu entrasse na internet e enviasse o recibo escaneado. Isso foi 5:30 da tarde. Às 7:30 da manhã a alfândega liberou. No dia seguinte, estava à minha disposição nos correios.

Não me senti como se quisessem me punir por ter comprado fora, não me senti desestimulado a fazê-lo, pelo contrário. Comprar pelo correio no Brasil é sempre duvidoso: a gente não sabe se recebe, não sabe quanto tempo a alfândega vai demorar, não sabe qual critério tributário vão aplicar…

O VAT aqui pra produtos eletrônicos é de 25%. Economizei em relação a ter comprado aqui. Vejo que, na Noruega, não fazem eles tanta questão de proteger uma indústria de mão-de-obra barata. Funciona em um país de menos de 5 milhões de habitantes. Funcionaria no Brasil?

16/1/2014
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Jon Bing

“A propósito, no final do corredor tem uma máquina de café e o preço é só duas coroas!”, disse Jon Bing no intervalo de sua primeira aula para nossa turma. Era setembro de 2011, e foi nesse instante que percebi que se tratava de alguém diferente. Não é todo dia que uma personalidade reconhecida internacionalmente tem a preocupação de dar uma dica tão mundana a seus alunos, muitos dos quais vindos de países pobres, e, como eu, então recém-chegados e assustados com os preços nesse país, onde um simples copo de café pode custar 30 coroas (cerca de R$12,00).

Naquele mês, finalmente conhecemos a figura de que tanto ouvimos falar ao nos candidatar a uma vaga no mestrado de direito da tecnologia da informação da Universidade de Oslo.

Há muito escrito sobre Jon Bing, e na Wikipedia pode-se saber mais um pouco sobre seus feitos acadêmicos e literários. Sua mente brilhante e sua rica cultura eram impressionantes, mas seu carisma era igualmente enorme. Jon não era o típico professor de Direito, apesar de nunca tê-lo visto sem gravata. Era um professor de Direito que gostava de elefantes. Que escrevia ficção científica e que convidava alunos e ex-alunos para sua residência, em um bairro longe de ser dos mais chiques de Oslo, uma vez por mês, para um jantar informal. Nessas ocasiões, e em outras, Jon falava com todo mundo, demonstrava legítimo interesse em conhecer seus convidados, de onde vinham, o que achavam do seu país, e se queriam um pouco mais de vinho.

Dois meses atrás, teve a generosidade de me dizer que sentiu orgulho ao ver meu artigo publicado, e dias depois, disse-me ter ouvido alguém falar bem do referido artigo. Típico Jon, que inspirou diversas carreiras e sempre demonstrou cuidado com seus alunos.

Já desde o início, em 2011 me impressionava seu amor ao seu ofício, vindo dar aulas em circunstâncias nas quais eu, tendo passado por similar situação, não sairia de casa.

Sua presença era tão respeitosa que eu jamais consegui chamá-lo apenas de ‘Jon’. A língua norueguesa contemporânea não possui mais certas formalidades como a nossa, e normalmente as pessoas se tratam apenas pelo prenome, ou por “você”, algo que sempre me causou dificuldade ao lidar com ele. Acabei sempre o chamando de “Professor”.

Descanse em paz, caro professor. Fico devendo a moqueca que combinamos fazer em sua casa em novembro, mas que adiamos porque tive que fazer uma viagem inesperada. E obrigado. Por tudo.

Matéria do jornal norueguês VG sobre a morte de Jon Bing. Tive a honra de estar em uma das várias ocasiões em que abriu sua residência para seus alunos e amigos.

Matéria do jornal norueguês VG sobre a morte de Jon Bing. Tive a honra de estar em uma das várias ocasiões em que abriu sua residência para seus alunos e amigos.

8/1/2014
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Notícias da Noruega

Notícias da Noruega: uma parlamentar, na última semana da gestão do governo passado, liga pra um ministro pra discutir a mudança do traçado de uma rodovia, a fim de que seja construído um túnel. Nada de mais, exceto o fato de que a obra custou um acréscimo de R$160 milhões e o traçado anterior passaria a 100m da propriedade da dita parlamentar.

Mas o que me surpreende não é o caso, em si. É forma responsável com a qual os políticos entrevistados na TV, principalmente os de partidos opostos à parlamentar, trataram do caso: não vi uma acusação rude, uma descortesia sequer, nem uma tentativa de capitalizar na desgraça alheia. Ao contrário: um excesso de cautela. Até a primeira-ministra (de partido oposto) disse que não tinha porque falar do assunto, já que não era da sua alçada investigar o caso.

Claro, se fosse no Brasil, já sabemos o espetáculo que viraria.

Cada vez entendo menos esse país, e fico sem saber que lição tirar do caso. Será que os noruegueses precisam ser mais desconfiados, ou será que nós brasileiros confundimos seriedade com oportunismo? De qualquer forma, no Brasil, qualquer indignação é bem-vinda. Já aqui, ainda não “saquei” o modus operandi do país: ou trataram da forma que trataram porque gostam de ver as coisas como são, sem mais, nem menos, sem os exageros do circo que é a política brasileira, ou porque, dando o benefício da dúvida à parlamentar, a mudança do traçado de fato pode ser benéfica para a população, ou porque talvez o fato de ser a corrupção algo menos frequente aqui, não há porque perder a compostura.

Mas que, tirando o perigo que é a falta de indignação em um ambiente em que precisamos tanto nos indignar, seria muito bom ver no Brasil a política e a coisa pública serem discutidas sem que qualquer coisa vire arma de guerra contra os inimigos políticos.

28/12/2013
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O Brasil e os impostos

Dizem que vivemos em uma democracia, em liberdade. Mas o Brasil às vezes se assemelha a uma ditadura qualquer. Vejamos:

O cidadão europeu que vai viajar a outro país dirige-se calmamente a um caixa eletrônico e escolhe a moeda que quer sacar, pagando apenas uma pequena taxa ao banco pela retirada.

O cidadão brasileiro tem que ir a uma casa de câmbio ou a um segundo andar de alguma agência central de um banco para “comprar” moeda estrangeira.

O cidadão que mora no exterior e quer enviar dinheiro pra alguma conta fora entra calmamente no seu internet banking e faz a transferência.

No Brasil, o cidadão tem que ir a um banco, tem que conversar com o gerente da sua agência, contar com funcionários preparados, preencher uns 2 formulários diferentes e anexar cópias comprovando que o motivo (sim, tem que dizer qual o motivo) da transferência de fato existe.

O cidadão europeu, pelas duas operações mencionadas acima, não paga imposto. O brasileiro, de cara, além do spread bancário e outras taxinhas, ainda tem que pagar 6,38%.

O cidadão dos países europeus, ao importar de países de fora da EU, paga normalmente alíquota zero para a importação, pagando apenas o valor do IVA, como se o produto fosse nacional.

Já os brasileiros, pagam Imposto de importação, ICMS, às vezes IPI (dependendo do tipo da importação) e ainda pagam 6% só por ter usado cartão de crédito para ter feito a compra.

Veja, antes que você diga que não entendo que o governo precisa de impostos (concordo), que é preciso aumentar a arrecadação para melhorar os serviços públicos (vai lá, pode ser), quero dizer que uma coisa é uma coisa, outra coisa é outra coisa: comprar coisas no exterior não é algo supérfluo ou de classe média. É estímulo à competição. É adquirir bens quase sempre sem similares nacionais. Fazer câmbio não significa ir pro exterior farrear – significa ir a trabalho, estudar ou, ainda, fazer turismo.

No Brasil, privilegia-se a tal indústria nacional sob a desculpa de proteger empregos (mas que vivem aproveitando para demitir na primeira chance), e qualquer desculpa para aumentar a arrecadação é válida.

Sugestão minha: coloquem o máximo de 25% de imposto sobre tudo o que vem do exterior e zerem o IOF. Vão arrecadar MUITO mais e, se a indústria brasileira tão acomodada valer mesmo a pena, vão se mexer.

O que não se pode é, num mundo globalizado, reduzir o cidadão brasileiro à vítima da burocracia tributária e criar todas as dificuldades para que sua população se internacionalize.

11/11/2013
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Tailândia II

Ok, eu me precipitei.

Escrevi três dias atrás sobre minha curta viagem à Tailândia.

Meu erro foi ter tentado reduzir um lugar tão rico e complexo às minhas primeiras impressões. Continuei a viajar um pouco mais por Phuket, e percebi que há de tudo aqui. Hoje descobri a minha mini-Itacaré aqui, e é pena que a viagem está chegando ao fim. Uma praia pequena, com uma vilazinha com bares e restaurantes, sem o choque que é Patong, sem a falta de praia que foi Friendship Beach, e sem o luxo da Laguna. Nai Yang é o que eu esperava de uma praia na Tailândia, e foi muito bom ter vindo pra cá.

Perto do aeroporto, a comida custa preços mínimos, as pessoas são igualmente gentis e atenciosas, e nada de neon, nada de multidão de vendedores – apenas uma praia gostosa com um pouco de vida à noite.

Ou seja, a Tailândia tem de tudo. É um lugar fantástico. Volto pra casa apaixonado por aqui, com vontade de voltar sempre. E o melhor da Tailândia continua sendo seu povo, embora suas praias, sua comida e seu atendimento conquistam qualquer um.

9/11/2013
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Tailândia

UPDATE: muito do que escrevi aqui foi precipitado. Escrevi um rápido post subsequente com uma atualização das minhas impressões sobre a Tailândia: http://maneblog.mgate.com.br/2013/11/11/tailandia-ii/

O melhor da Tailândia são os tailandeses.
Sim, caro leitor, encontro-me no Reino de Sião, hoje Tailândia. Nunca imaginei que viria aqui, embora sempre tenha nutrido enorme curiosidade de visitar esse país. Meu desejo de vir a esse país começou ao conhecer uma estudante intercambista da Tailândia que viveu em Conquista por um ano. Desde então sempre considerei vir visitá-la. Mas foi um acaso a minha vinda, o que achei ótimo, já que surpreendentemente, as boas coisas da vida quase sempre são oriundas do acaso.
O lugar é lindo, e me lembra muito o Brasil. Gostei de Bangkok, gostei de Phuket.
Mas confesso que não foi a natureza que me impressionou na Tailândia, mas sim o povo que vive aqui. Povo extremamente atencioso, simpático e educado. Pra se ter uma idéia, inventei de dirigir aqui, e eles dirigem “à inglesa”, com volante do lado direito e tudo. Apesar das minhas prováveis barbeiragens, nenhum xingamento no trânsito, e muita paciência por parte dos tailandeses. Sempre sorriem, sempre solícitos.
Quanto a Phuket, tenho sentimentos mistos em relação ao local. Tome-se Patong, por exemplo. É como se estivéssemos em uma Itacaré ou Porto Seguro, porém mil vezes mais inflada e caótica. Isso retira um pouco do charme natural que o lugar tem. Isso e a prostituição escancarada, que é quase engraçada nos primeiros 10 minutos, com ofertas para shows chamados “Banana show”, “ping-pong show”, ou coisas do gênero (talvez o Google explique isso melhor do que o decoro do espaço permite… ;), mas que se torna irritante depois de certo tempo.
Sim, se você se irrita com vendedores nas praias do Brasil, Patong será ainda mais irritante. E os ambulantes tailandeses insistem muito. Mas é um povo incapaz de cometer uma grosseria.
Fui às ilhas Phi Phi, conhecidas por terem sido cenário do filme “A Praia”. São de tirar o fôlego. Mas é triste sentir que há tão pouco planejamento público nesses lugares. Ao se chegar em Phi Phi, praia que bom, nada – milhares de quiosques vendendo bugingangas, e, para ir a uma praia, só pagando outros barcos para te levar lá. E ninguém nunca te avisou disso. Por outro lado, tinha umas poucas praias próximas, mas apenas uma me pareceu aberta para banho, já que as outras servem como ancoradouro de dezenas de barcos que fazem o transporte da ilha. Ou seja: ao invés de usarem as praias como devem ser usadas, desperdiçam um patrimônio excelente e o tornam em imensa bagunça.
O trânsito é lento, com milhares de pequenos “scooters” e motos em todo canto, a ponto de se levar 2 horas para percorrer 30-40km. É outra pena.
Comparar com o Brasil é inevitável. Se por um lado as praias são paradisíacas, as estradas sem buracos, o povo maravilhoso e a segurança ser a norma, por outro lado no Brasil, pelo menos na Bahia, as praias ainda são acessíveis por todos, são de fácil acesso, e não há tantos obstáculos até chegar a elas. E as cidadezinhas no Brasil, tipo Itacaré ou Praia do Forte, se mal planejadas (caso da primeira) ou meio descaracterizadas pela “modernagem” (caso da segunda), ainda são tranquilas e sem a sensação de se estar em uma feira do Paraguai. Mas, em compensação, aqui a comida é muito boa, a sensação de segurança é onipresente, e não se sente que estão tentando tirar vantagem o tempo todo.
Confesso que essa viagem aqui me deu certo orgulho do Brasil – acho que somos um excelente destino turístico, até porque somos um povo que gostamos de praia (eu quase não vi tailandeses nas praias, não sei se por razões econômicas (duvido)). Acho mais fácil desestressar em Itacaré ou na Praia do Forte (Porto Seguro pode ser meio complicada), porque tem-se uma charmosa vila para curtir com tranquilidade à noite, e praias maravilhosas de dia. Mas se a Tailândia não me impressionou tanto pelas praias (talvez mais bonitas que as nossas), o lugar me conquistou pelo seu povo e sua leveza.
Se você já foi à Tailândia, por favor, me diga o que achou.

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